QUEM TEM MEDO DO MADEIRISMO? 

 

 

            O que torna a maioria das pessoas "naturalmente" reacionárias? O que as faz temerem tanto o novo, tremendo de febre e misoneísmo diante daquele que grita o make it new? O que leva o bando (povo sem cultura é bando) a temer os madeiristas, como se fôssemos (somos?) o anticristo estético-local dessa virada de milênio?

            Desde 1999 nossa voz assusta, seduz, irrita e silencia. Nos tornamos (sem louvor nenhum), parâmetros de uma coisa em si necessária, mas não suficiente: a van-guarda. Enquanto muitos nos lançavam pedras ou rosas, outros fingiam não ver a caravana que lhes passava por cima das pequenas cabeças. Desde o Manifesto Madeirista publicamos palavras de desordem nos jornais e desvirtuamos a monotonia das conversas. Chovemos no piquenique alheio com toda a graça que podíamos. Já era hora de colocar dois pontos nessa conversa:

            Há quem veja no Madeirismo um movimento carrancudo, acadêmico, elitista, talvez pela consciência que exigimos diante do fazer artístico. Pensam ver seres sombrios, corpos de volume denso, pairando numa sala escura de onde brotam os ataques à Mediocrilândia. Deixam de ver o humor, a ironia, a gargalhada malandra por trás da miragem. O Madeirismo sempre foi pastiche de estilo, caricatura de si mesmo. Qualquer inteligência média já desconfiaria de nossas intenções ao ouvir o próprio nome do Manifesto.

            Ao mesmo tempo, enganam-se aqueles que só vêem o deboche, o salto cabriolesco desses estranhos bobos da corte deste esclerosado porto. Por trás desse riso, há ainda uma terceira superfície, terceira margem que até agora quase ninguém ousou tocar. Há em tudo que escrevemos, pintamos e compomos a prática, a virtualização visível de nossas paixões. O grupo é pequeno, imensamente pequeno, mas tem corrompido, alterado o status quo desse pastiche (malfeito) da cultura oficial. Ou fruto do Madeirismo ou fruto do contato com este é que se tem pensado, discutido e construído a arte que vale a pena criar porque também nos cria como seres mais complexos e livres, replicantes de outro tempo, de outros pastos. Enganando, rindo e criando fomos fazendo músicas, artes plásticas e palavras que se multiplicam no espaço e se confundem de tal modo que será preciso deslimitar esses conceitos. Não fazemos arte multimídia, apenas. Fazemos intertextos com toda a liberdade de quem se considera pos-neo-nada. Por isso o Madeirismo poderia ter qualquer nome e ter surgido em qualquer lugar (apesar de estar sendo mais monótono devorar as mirradas minhocas locais, sempre locais, do que, por exemplo, as radioativas do Tietê). Por que o Madeirismo é zen(-vergonha): não é política, cartilha, bandeira: é postura existencial, modo de estar no mundo, rompimento com paradigmas. Foram madeiristas todos aqueles que sempre fizeram a diferença. Agradecemos, por exemplo, ao reconhecimento antecipado que nos fez o Brás Cubas, ao dedicar-nos suas memórias madeiristas. Ou, ainda, Velásquez, onde um sujeito livre abriu a porta no fundo do seu quadro e disse "vou à Livraria da Rose (antigo reduto madeirista, antro de vastidão, eixo do mundo) e já volto". Ou a Borges, que em sua biblioteca de Babel não deixou de catalogar nosso Manifesto. Enfim, quem não é por nós será sabe-se lá o quê. 

            O Manifesto Madeirista foi publicado pela primeira vez  no Jornal Alto Madeira, em 10 de janeiro de 1999. Estava no Jornal O Estadão no dia 24 do mesmo mês. Circulou por outros jornais e revistas impressas e virtuais, foi traduzido e levado para a Itália por Joesér Alvarez, participou duma coletânea de textos em Cuba e foi publicado no número 17 deste mesmo Caderno de Criação em abril de 1999. Seguiram-se os artigos aqui reunidos e toda a polêmica. Os textos são públicos, e sabemos que alguns leitores de ambos os lados os têm no fundo da gaveta, cobertos de baba ou de beijos. Mas, como não facilitamos com este tempo sem tempo, aqui estão os principais, aqueles que nos deram mais prazer e, a alguns, mais raiva. Chegamos sinceramente a cogitar da publicação dos textos-em-contrário, mas bastou uma breve releitura para desistir do intento. Nós somos obrigados a ler aquelas asneiras escritas por analfabetos práticos,  sem coragem de escapar da casa, da família, da universidadezinha e da igreja; mas nossos verdadeiros leitores, não. A eles todo o nosso carinho louco, nossa devoção inútil, nosso ódio ardente e nosso otium cum dignitat. Poderíamos tê-los mandados todos à merda, e ficar criando aquilo de que nos sabíamos capazes, mas resolvemos acreditar, apesar de tudo. Valeu a pena. A guerrilha intelectual faz bem ao cérebro de todo mundo. No caso de quem já não o possui ...

            Tanto faz quanto tanto foz! Cadê a tua voz?