HISTÓRIA E ESTRUTURA RITUAL DE UM TERREIRO GEGE-NAGÔ

 

 

MARTA VALÉRIA DE LIMA

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA - UFRO

 

                No período de 1999 a 2000 realizamos uma pesquisa etnográfica que teve por finalidade estudar uma antiga casa de culto afro-brasileiro na localidade de Porto Velho, Rondônia. A nossa finalidade quando realizamos a investigação foi a de resgatar a história da casa preservada pela memória coletiva e registrar as suas práticas rituais, assinalando as transformações ocorridas. Neste artigo discorreremos sobre alguns aspectos da sua história e estrutura ritual.

                Em Porto Velho os cultos afro-brasileiros foram genericamente denominados Macumba ou Batuque, e, mais recentemente, Umbanda. Assim como em outros lugares do Brasil, esses cultos foram implantados, sobretudo, em bairros populares.

                A tradição oral e as fontes documentais escritas indicam que esses rituais estabeleceram-se nos bairros que apareceram em torno do pátio ferroviário da Estrada de Ferro Madeira Mamoré (EFMM), local onde teve início a cidade de Porto Velho. O primeiro terreiro dessa localidade chamava-se Recreio de Yemanjá[1], tendo sido fundado nas imediações desse pátio, no bairro conhecido por Mocambo, povoado por migrantes de vários estados brasileiros, principalmente Amazonas, Pará, Maranhão, Bahia e Ceará.

                As fontes orais e escritas divergem quanto à data de fundação do terreiro. O ano de 1917 parece ser o mais provável. A memória oral e os registros documentais são unânimes, entretanto, ao indicar os nomes de Esperança Rita da Silva (1888? /1972) e Irineu dos Santos (? /1946) como os pais fundadores do Recreio de Yemanjá. Há também unanimidade na informação de que estes fundadores eram procedentes da cidade de Codó, no Maranhão.

                Nilza Menezes, na obra Mocambo: com Feitiço e com Fetiche: trajetória do Bairro Mocambo em Porto Velho–RO (1999) refere-se à origem e atividades profissionais dos primeiros habitantes do Bairro Mocambo, que segundo a autora era ocupado predominantemente por negros, que exerciam as seguintes atividades econômicas: quituteiras, biscateiros, pedreiros, carpinteiros, prostitutas, feirantes e desempregados que buscaram nos fundadores deste primeiro terreiro a caridade[2].

                Os registros orais coletados junto à comunidade do terreiro e a antigos moradores da localidade de Porto Velho indicam que estes fundadores eram negros de descendência mina que trouxeram para Porto Velho o legado cultural afro-brasileiro do tronco fon-yoruba através dos rituais do Tambor de Mina[3], que se popularizaram com as denominações de Tambor, Batuque, Macumba e também Umbanda.

                De acordo com os escritos de Antônio Cantanhede (1950:200), Esperança Rita da Silva e Irineu dos Santos fundaram, em 1914, a Irmandade Beneficente de Santa Bárbara, que por sua vez fundou, no ano de 1916, a Capela de Santa Bárbara. Os depoimentos coletados indicam que um número expressivo de membros da Irmandade de Santa Bárbara fazia parte da comunidade do terreiro.

                O Recreio de Yemanjá e Irmandade de Santa Bárbara não se relacionavam apenas com a Igreja Católica e outras irmandades religiosas católicas, mas também com outros grupos de culto que adotavam modelos religiosos diferentes, como pajelança indígena e kardecismo, o que, de alguma forma, reflete-se na construção da identidade religiosa de influência afro-brasileira que surgiu em Porto Velho nas primeiras décadas do século XX. As práticas rituais afro-brasileiras desse terreiro têm muitos pontos em comum com as religiões da região de Codó, no Maranhão, conforme foram investigadas e analisadas por Mundicarmo Ferretti (1996; 1997), em especial com o modelo Terecô, também denominado Tambor da Mata.

                Entre os anos 1930 e 1950 o Recreio de Santa Bárbara firmou-se como espaço de cura e de lazer, as festas e o atendimento religiosos promovidos pelos afiliados popularizaram algumas entidades do seu panteão mágico-religioso que se tornaram famosas por seus poderes curativos, como por exemplo: Seu Mansidão, Seu Bahia, Seu Roxo, Caboclo Brabo, Dona Jarina, Seu Jurema, Jatapequara, Barão de Goré, Príncipe Regino, Cabocla Mariana e outras.

                Nesse período aconteceram alianças políticas entre os dirigentes do terreiro e as elites dominantes (representantes dos poderes formalmente constituídos da Igreja e do Estado). A Irmandade de Santa Bárbara era uma bem sucedida associação beneficente que promovia os eventos religiosos mais concorridos da cidade, movimentado recursos materiais e humanos nada desprezíveis, contando também com o apoio e a aprovação da Igreja Católica que tirava proveito da sua atuação social.

                O véu de tolerância da Igreja Católica para com a comunidade do terreiro só parece haver descerrado no ano de 1947 quando assumiu a Prelazia de Porto Velho o Bispo Dom João Batista Costa, que extinguiu a Irmandade de Santa Bárbara e mandou fechar a Capela.

                Apesar das medidas oficiais da Igreja, o grupo comandado por Dona Esperança não acatou as determinações do Bispo, reabrindo a Capela em um dos prédios do conjunto arquitetônico do terreiro e dando continuidade às suas atividades religiosas e beneficentes com uma nova razão social, a de Sociedade Beneficente de Santa Bárbara. Os antigos membros do grupo pertencentes à comunidade do terreiro conservaram a identidade de irmãos e membros da Irmandade de Santa Bárbara, identidade que se preserva até os dias atuais entre aqueles que se consideram e que são considerado afiliados ao terreiro.

                É importante ressaltar que o Recreio de Iemanjá se popularizou como Barracão de Santa Bárbara, nome que foi legitimado no início dos anos 1970, após a morte de Dona Esperança e a posterior transferência do terreiro para o Bairro Nova Porto Velho. Portanto, desde a ruptura com a Igreja, em 1947, Irmandade de Santa Bárbara e Barracão de Santa Bárbara formam uma identidade única, embora executem atividades rituais distintas, que se caracterizam por uma maior presença de elementos do catolicismo popular e dos cultos afro-brasileiros nos diferentes espaços de culto do terreiro: Capela e Barracão.

                A linha de sucessão material e espiritual do terreiro pode ser observada no quadro abaixo:

 

DIREÇÃO DO BARRACÃO DE SANTA BÁRBARA - 1917 a 2000

 

1.ª DIREÇÃO (1914 / 1946)

SEU IRINEU E DONA ESPERANÇA

Idade: ? Idade: + 25 a +58

SEU MANSIDÃO E SEU BAHIA

Yemajá – Yansã

2.ª DIREÇÃO (1946 / 1972)

SEU ALBERTINO E DONA SPERANÇA

Idade: 25 a + 52 Idade: + 58 a + 85

SEU MANSIDÃO E SEU BAHIA

Xangô Yansã

3.ª DIREÇÃO ( +1972 / +1973)

SEU ALBERTINO E DONA M.ª ESTRELA

Idade: + 53 a + 54 Idade: + 46 a + 47

SEU MANSIDÃO E D. ESTRELA DO MAR

Xangô – Xapanã

4.ª DIREÇÃO (1974 / 1994)

SEU ALBERTINO

Idade: + 74

SEU MANSIDÃO E SEU DORISININHO

Xangô

 

5.ª DIREÇÃO (1994 / aos dias atuais)

BETO E DONA CARMITA

Idade: 31 aos ___ Idade: 60 aos ___

OGUM BEIRA-MAR E SEU CACHOEIRA

Ogum – Oxum

 

                De sua fundação no Bairro Mocambo, o terreiro transferiu-se para os seguintes bairros: Santa Bárbara (+ 1944 / +1972), Nova Porto Velho (1975 e 1976/1978) e Vila Tupi (1978/...). A Capela de Santa Bárbara quase sempre acompanha os seus percursos e trajetórias. Estas mudanças exerceram forte impacto na comunidade do terreiro, contribuindo para a sua desagregação.

                Na trajetória do terreiro houve muitas tensões internas e conflitos sucessórios que levaram a rupturas e fundação de novos terreiros, searas[4] e bancas de cura[5], contribuindo para a sua fragilização. Nesse ínterim, além das dissessões e rupturas internas, houve vários fluxos migratórios para a região, isto provocou o crescimento da localidade de Porto Velho e o aparecimento de outros modelos religiosos aumentando a competição no mercado de bens simbólicos.

                A fundação da Federação Umbandista do Estado de Rondônia-FEUR (1977) serve como exemplo do que acabamos de afirmar, pois ela promoveu intensas campanhas de afiliação e tentativas de unificação das religiões afro-brasileiras no Estado, divulgando as suas propostas durante os eventos que realizava, especialmente os que foram chamados de Encontro dos Orixás, que reunia o povo-de-santo da localidade de Porto Velho e circunvizinhança, bem como de diversos pais-de-santo umbandistas de outros estados brasileiros, que aproveitavam o evento para divulgar as suas casas e atividades religiosas, arregimentando novos membros entre o povo-de-santo de Rondônia, classificando as formas de religiosidade dos antigos filhos e filhas-de-santo e inflenciando-os a adotarem outros modelos religiosos. Os terreiros antigos também sofreram essas influências da Umbanda, alterando ou incorporando novas tradições às suas práticas rituais.

                Nos registros da memória oral do Barracão de Santa Bárbara fala-se de pontes de ligação com casas das tradições afro-brasileiras maranhenses, paraenses e amazonenses, seguidoras do modelo mina-nagô. Atualmente, as pessoas que compõem a comunidade do terreiro desconhecem essas pontes. Elas foram perdidas, estando presentes somente na memória das pessoas mais antigas do barracão. A perda desses vínculos favoreceu as transformações rituais e trouxeram um problema: os atuais pais-de-terreiro (Beto e Dona Carmita) e os seus possíveis sucessores afirmam não saber como preparar os novos filhos-de-terreiro e iniciá-los nas antigas tradições.

                Ressaltamos que a história oral, que é contada pelos membros mais velhos do terreiro, contém um grande número de referências a entidades voduns do Tambor de Mina que pertencem à Linha de Queviosó (Averequete, Badé, Nanã, entre outras), o que nos permite concluir que no passado, quando o terreiro investigado era administrado pelos membros fundadores, muitos dos quais negros de descendência maranhense que chegaram a Porto Velho já preparados e catulados em casas de cultos afro-brasileiros do Maranhão, havia uma influência desse modelo religioso no terreiro, e assim, o mesmo continha elementos rituais dessa tradição conhecida como mina-nagô e suas entidades como príncipes e princesas, juntamente com entidades da mina-encantaria, identificadas como caboclos.

                Observando a estrutura ritual do Barracão de Santa Bárbara é possível constatar que o catolicismo popular é um modelo religioso muito forte na organização do seu sistema religioso e que embora todos os membros desse terreiro afirmem ser católicos não negam a sua identidade afro-brasileira.

                A estrutura ritual do Barracão de Santa Bárbara obedece ao calendário católico, havendo poucas alterações. Em geral as cerimônias dedicadas aos orixás, voduns e caboclos acontecem nos dias em que a Igreja Católica festeja alguns dos santos mais populares do Brasil, santos que na cosmogonia do povo de Santa Bárbara são os mesmos cultuados pelos chefes-de-linha que governam a vida da Irmandade. As comemorações mais importantes do terreiro são dedicadas a Santa Bárbara, identificada como Yansã, e a São Sebastião, identificado como Oxóssi.

                Na perspectiva do catolicismo popular há muitas semelhanças das cerimônias em homenagem aos santos desse terreiro com os rituais católicos da comunidade amazônica de Itá, pesquisada por Charles Wagley (1955) e por Eduardo Galvão (1957) em meados do século XX. Essas mesmas práticas religiosas ainda estão presentes entre as comunidades tradicionais da região do baixo Madeira, que se dedica ao extrativismo vegetal (castanha e látex), conforme tivemos oportunidade de constatar numa pesquisa de campo em 1997, quando participamos de um festejo em homenagem a São Sebastião em um antigo seringal da região denominado Catarina das Abelhas.

                As atividades rituais desenvolvidas no Barracão de Santa Bárbara são divididas em duas categorias amplas: Bateção e Tambor de Obrigação. Desta última faz parte uma série de ritos denominados Tambor Menor e Festejos Grandes, eles variam conforme o calendário ritual.

                As expressões Bateção e Tambor designam genericamente o ato de tocar tambor. Existem, no entanto, rituais com toque de tambor que são dispensáveis e outros que não são. Os rituais que podem ser dispensados são chamados Bateção, e os que não podem, Tambor de Obrigação. Todos os rituais constantes do calendário ritual anual fazem parte da segunda categoria.

                Festejos Grandes são os rituais que duram vários dias ou semanas, portanto, são ciclos rituais de longa duração, nos quais homenageiam-se os principais chefes ou linhas espirituais por meio das quais as entidades do terreiro se manifestam. Houve uma época em que havia diversos ciclos rituais que pertenciam a essa categoria, hoje em dia existem apenas dois: os Festejos de Junho (24/06) e os Festejos de Santa Bárbara (26/11 a 20/01). Desses, o único que vem sendo cumprido sem alterações nas datas e intervalos são os Festejos de Santa Bárbara.

                As mudanças na estrutura ritual do Barracão de Santa Bárbara parecem ter começado com Seu Albertino, dirigente do terreiro de 1946 até 1994, pois foi quando ele assumiu sozinho a direção do terreiro que aconteceram as mudanças mais significativas, o que pode ser constatado através dos novos cantos sagrados entoados durante os rituais e na incorporação de filhos-de-terreiro com entidades da Umbanda, bem como na identificação deles como umbandistas. O sucessor de Seu Albertino, Manoel Roberto Neto da Silva (Beto), que assumiu a direção da casa em 1994, representa um exemplo dessa transformação, seu chefe-de-coroa, Ogum Beira-Mar, é uma entidade que pertence à Linha de Umbanda.

                É também sintomático o fato de que durante a administração de Seu Albertino tenham desaparecido entidades voduns do Tambor de Mina (Averequete, Badé, Tocé, entre outras), assim como as de maior prestígio da mina-encantaria (Toia Jarina, Dona Mariana, Príncipe Regino da Beira, Barão de Goré, entre outras), surgindo outras novas entidades no lugar das mais antigas.

                É possível afirmar que Seu Albertino preparou o caminho de abertura do terreiro para a Umbanda, enfraquecendo, cada vez mais, a tradição maranhense. Entretanto, conforme afirmamos anteriormente, o Barracão de Santa Bárbara ainda mantém algumas reminiscências da antiga tradição ritual e religiosa herdada dos fundadores, como os cantos sagrados (chamados de dotas ou doutrinas) para homenagear aos voduns da linha da mina-encantaria, que são entoados nos rituais de abertura de tambor.

                Podemos apontar outros elementos extremamente refinados do legado tradicional do terreiro que foram mantidos: a forma de cultuar os exús (que são denominados home); as cerimônias em homenagem aos santos católicos com rituais de levantamento e derrubamento de um poste ritual, assemelhando-se nisto às Festas do Divino que ocorrem no Tambor de Mina de São Luís (MA), conforme relata Sérgio Ferretti (1985; 1995) em Querebentam de Zomadonu e em Repensando o Sincretismo Religioso, e os rituais de aniversário dos guias, muito assemelhado aos que foram descritos por Mundicarmo Ferretti (2000) em Desceu na Guma e na divisão das entidades em curadores e mineiros.

                Ao tomar conhecimento da história da casa e das doutrinas (cantos sagrados) que foram por nós recolhidas em fitas K7, o pai-de-santo da tradição mina, Francelino de Shapanan, que reside na cidade de Diadema-SP e é considerado entre os pais-de-santo como um dos maiores conhecedores da tradição mina no Brasil, se surpreendeu com o conjunto de doutrinas que se conservaram, apesar do isolamento do terreiro em relação a outras casas da tradição mina-nagô de outros estados e por ser ela, talvez, a última depositária da tradição mina-nagô em Porto Velho.

                A tradição mina, tal qual foi descrita por Maria Amália Pereira Barreto (1977: 58-65) e por Sérgio Ferretti (1985:13-14) ao referirem-se à estrutura física da Casa das Minas, também oferece espaços muito semelhantes aos do atual Barracão de Santa Bárbara. Neste sentido é importante destacar que embora a memória oral registre que na trajetória histórica do terreiro ocorreram brigas, disputas e rupturas internas, não houve mudanças na sua estrutura física; ele manteve os espaços tradicionais: salão de baia, pegi, capela, casa dos home e recreio dos caboclos. Ressaltando ainda que o terreiro investigado surgiu na periferia e lá permanece, tendo na maioria dos seus prosélitos pobres urbanos.

                O estudo sobre o Barracão de Santa Bárbara indica que houve uma forte influência das tradições mina-nagô na formação do campo afro-religioso da cidade de Porto Velho. É importante ressaltar que estas tradições sofreram alterações que refletem os processos de incorporação de outros modelos religiosos que aportaram na cidade com os movimentos migratórios posteriores às duas primeiras décadas do século passado, especialmente aquelas que ocorreram nas décadas de 1970 e de 1980.

                Ao investigar o Barracão de Santa Bárbara nossa maior dificuldade foi a de definir o modelo ritual adotado, devido às múltiplas influências que ele recebeu e incorporou de outras tradições religiosas, como as do Batuque do Pará, por exemplo. É possível observar que a Umbanda também influenciou esse modelo, e que no passado o kardecismo e a pajelança indígena tiveram um papel destacado na sua organização e nas suas práticas rituais. Entretanto, como já foi afirmado, o modelo religioso adotado sofreu diversas transformações, ocorrendo o enfraquecimento e até o desaparecimento de alguns dos elementos que compõem alguns destes modelos. Neste sentido, podemos dizer que a sua atual estrutura ritual pode ser classificada como encantaria umbandizada.

                Para concluir, gostaria de enfatizar que a Irmandade do Barracão de Santa Bárbara é uma comunidade religiosa que luta para manter a sua identidade cultural face aos efeitos das transformações sociais que acontecem na cidade, e que afetam os membros dessa comunidade, ficando evidenciado o caráter dinâmico da cultura nesses processos de mudanças e a resistência dos elementos tradicionais, por funcionarem como sinais diacríticos dessa comunidade religiosa em relação às outras.

                É difícil fazer previsões do destino dessa casa de culto e da sobrevivência do grupo nos próximos anos, especialmente porque hoje em dia o terreiro é composto de contingente exclusivamente adulto, nenhum dos seus membros encontra-se com menos de trinta anos de idade. Não há a participação de crianças dentro da rotina do terreiro como havia no passado. O que nos parece mais evidente é que a comunidade precisa se repensar e se reorganizar enquanto comunidade ritual, sob pena de vir a se reduzir gradativamente até desaparecer.

 

Notas

 

[1] Não encontramos nas fontes documentais pesquisadas nenhum outro registro de terreiros que antecedesse ao Recreio de Yemanjá, daí considerarmos o primeiro da localidade.

[2] Menezes, 1999:22-24.

[3] Referindo-se às práticas religiosas de origem africana no Brasil, Roger Bastide (1960:256-266) informa que no Maranhão as religiões afro-brasileiras são denominadas de Tambor de Mina, explicando que esse modelo religioso reúne elementos da tradição daomeana com elementos da tradição indígena. Afirma também que a religião de origem daomeana praticada no Maranhão foi misturada com o Catimbó, e que as entidades voduns daomeanas não descem para visitar os mortais e serem adoradas, como acontece no Daomé, mas vêm como caboclos para trabalhar, não da África, mas das florestas vizinhas, do mesmo modo como acontece com os espíritos dos índios. Ele também afirma que no Brasil essas entidades perderam a posição hierárquica destacada que tinham no panteão daomeano, tornando-se, assim, intermediárias entre os homens e as divindades católicas (os santos), servindo-lhes de guias.

[4] Seara – De acordo com a definição do atual dirigente do Barracão de Santa Bárbara, Manoel Roberto Neto da Silva: “a seara pode ser grande ou pode ser pequena, mas a seara é aquele local onde não tem toque de tambor e que é usado pra trabalhos. (...) Um local usado pra trabalhos e que não tem toque de tambor. O guia vem, somente, pra trabalhar. Pro bem ou pro mal. Ali é a seara deles, aonde tem o altar, tem tudo direitinho, tem tudo organizado, é uma seara”.

[5] Banca de Cura – Segundo o mesmo Manoel Roberto Neto da Silva, “banca é um altar, um altarzinho, aonde a pessoa acende sua... faz suas obrigações. Acende a vela pro guia, pra o santo do guia, do.., sei lá!; a banca, é justamente só aquele local. Só o altar” (PVH: 19/01/2000). Este mesmo pai de santo nos explicou que a banca é o altar pessoal do médium, também conhecido na região pelo nome de mesinha, e que quando o médium a transforma em banca de cura, a mesma não pode ser colocada dentro do seu quarto, deverá ser posta noutro local.

 

 

BIBLIOGRAFIA:

 

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