ENTREVISTA COM OS MADEIRISTAS

 

 

 

 

    O Madeirismo parece só ter feito sucesso entre os jovens, o que talvez comprove sua tese de que este mundo é composto em grande parte por singelos caducos precoces. Um grupo do Terceiro Ano do colégio Carlos Costa, lido nos artigos do movimento, resolveu elaborar as perguntas que, respondidas, constituem a entrevista abaixo:

 

Entrevistadores: Qual a origem do Manifesto Madeirista?

 

Madeiristas: A consciência de que as “imagens” estereotipadas das manifestações artísticas regionais, isto é, que se limitam e limitam a expressão e o significado à um costume e à um mal costume, se ligam, normalmente, a todos os tipos de poder e não a uma dissolução da realidade que somente a arte pode e deve fazer. É papel preponderante da arte multiplicar e questionar todas as formas de existência, todas as concretudes e abstrações, desfazendo aquilo que as prende tanto a um tempo quanto a uma subserviência.

 

E: A publicação do Manifesto ocorreu para incomodar?

 

M: Não! Os incomodados se incomodaram porque para eles não havia outra coisa que seu tradicional umbigo. Apesar de que não há arte que não incomode. Incomodar faz parte daquilo que entendemos como arte.

 

E: O que significa o Manifesto?

 

M: O encontro e o confronto da nossa alma inconformada e furiosa com o mundo castrador da produção em série. O Manifesto Madeirista é o primeiro rompimento estético e filosófico desta região acostumada à crítica tão-somente de botequim e aos confetes trocados. Sua publicação substituiu a serpentina pelo sopapo, o elogio pelo deboche e o lugar-comum pela inteligência.

 

E: Por quê Carlos Moreira chama o nosso Estado de “província”?

 

M: Vocês acham que não é? O Brasil não passa de um pais provinciano, com uma tradicional “arte” provinciana, castradora e ensinável em qualquer colégio. Todas as vozes que escaparam dessa pequenez conquistaram seu lugar apesar do pequeno mundo que os estrangulava. A “nossa cultura” é puro estrangulamento. Os limites da nossa língua não são econômicos ou políticos, mas viscerais, tomaram as formas e os desejos dos poderes e não conseguem combatê-los dentro da sua ação artística. Arte é libertinagem, liberdade. A liberdade é a única arma que nos resta.

 

E: Consideram-se um grupo revolucionário?

 

M: Se revolucionário for ser contra tudo e levar e a negação até o nada, então somos revolucionários; mas se revolucionário for produzir somente novas formas, novas palavras, novas belezas: não! Não somos revolucionários nem criadores. Nossa descriação deve ser levada aos últimos extremos para significar sem coerência em múltiplas imagens aquilo que entendemos do mundo: o desencontro e o desequilíbrio entre os seres e dentro de cada ser enquanto é sempre e somente não-ser, contra-o-ser e para-que-o-ser.

 

E: Vocês acabam com a arte existente. Não há nada de valor no que temos visto até hoje?

 

M: Não há uma arte regional mas objetos artísticos, produzidos segundo tradições e costumes, segundo estereótipos e descrições superficiais do mundo: não é arte, é artesanato que não sabe que é artesanato e pensa que é arte. A pintura, a música e a literatura não apenas de Rondônia mas do país inteiro, precisam aceitar o desafio do vazio, da liberdade que reside fora dos limites da linguagem, dos calendários e dos mapas míopes.

 

E: Quais os artistas locais que já têm trilhado essa cultura mais universalizada?

 

M: Importa citar nomes? Aquilo que estiver sendo criado com a força necessária para decolar da superfície medíocre dos localismos aparecerá por conta própria e servirá como brecha, interrogação e pura negatividade. Arte é negação: só o mercado afirma!

 

E: Por que o silêncio, se o que se ouviu durante o show “Caixa de Silêncio” foi a palavra?

 

M: O silêncio esta entre as palavras, antes e depois delas, marcando-as com sua negação, pois o silêncio das palavras é sua maior força, negando o ruído do poder e as cantilenas do senso comum. O silêncio é nossa maior arma contra as palavras que não são palavras e que todos os dias se desgastam em ridículas horas inúteis. “Caixa de Silêncio” é o primeiro momento do exercício de um silêncio que não estamos acostumados a ouvir.

 

E: Uma cadeira no teto, outra do lado oposto, no chão. Há sentido lógico ou foi para impressionar?

 

M: Não há lógica a não ser naquilo que quer convencer, quer ser, quer poder e nós queremos somente desfazer o ser, o poder, o fazer. Nossa “lógica”, sendo múltipla, virtual e negativa, não pode se apresentar como Lógica, mas como dissolução, seja da imagem, da palavra, da matéria ou do som.

 

E: Com certeza o show ajudou a confirmar o Movimento. O que vocês dizem da crítica posterior?

 

M: Embora tenha sido positiva, sabemos o quanto é gratuita e despreparada para questionar e para discordar aquilo que propomos. Elogiariam ou discordariam de qualquer coisa sem entender profundamente nada, pois a “crítica” regional é tão somente uma brincadeira de colegiais, disfarçada de jornalismo cultural, mais covarde que inteligente, mais enrolona que labiríntica.

 

E: O “bando” é composto por músicos, narradores, poetas e artistas plásticos. De que forma o Madeirismo alterou o modo de ver a Arte?

 

M: O buraco foi alargado, a brecha foi arrombada, e onde cabiam poucos dedos, poucos olhos, poucas línguas agora entram corpos, mundos, vontades inteiras, sonhos paranóicos e devaneios sádicos: e todos os universos invertidos clamam por este carnaval sanguinolento e sígnico.

 

E: Yorick (a caveira que dialoga com os poemas durante o espetáculo), foi o quinto personagem do show. O que motivou essa participação especial?

 

M: Ele não foi o quinto elemento: ele foi o primeiro: ele é o único e definitivo madeirista, posto que só ele conheceu e conhece os segredos da ressonância e do silêncio universais. No palco, era de Yorick o olho que pulsava e não da Sibila. É função do artista fazer com que seu Ver sobreviva ao seu olhar, e nosso amigo simboliza esta vitória: viva a vida, viva a arte, viva o Madeirismo!