CONQUISTAS NEGRAS

OS CONCEITOS DE RAÇA E NAÇÃO NOS ESTADOS UNIDOS NA PASSAGEM DO SÉC. XIX PARA O XX

 

 

SUZANA LOPES SALGADO RIBEIRO

NÚCLEO DE ESTUDOS EM HISTÓRIA ORAL - USP

 

            Esse artigo objetiva a abordagem de dois temas: raça e nação, contextualizando historicamente a questão negra nos anos finais do século XIX e primeiros de nosso século. Com essa delimitação pretende-se analisar as permanências e mudanças na história das conquistas dos direitos civis dos negros norte americanos que variaram bastante após o período da Reconstrução.

            Para a realização dessa pesquisa escolhemos como fonte primária o filme The Birth of a Nation de 1915. A opção pela análise de um filme se deu pelo destacado papel que Hollywood vem ocupando neste século na formação e divulgação de valores e ideais para a sociedade, que ultrapassa as fronteiras físicas americanas, impostas pela geografia política. Tentaremos responder de que maneira o cinema apresenta-se como espelho das atitudes de uma determinada época ou ainda como tenta influir na formação de modos de pensar. Analisando The Birth of a Nation pretendemos entender não o contexto da Guerra Civil, trabalhado por ele, mas o ressurgimento do racismo e reorganização da Ku Klux Klan que acontecia nos anos em que David Wark Griffith rodava seu filme.

            O período escolhido para essa pesquisa enfoca um aspecto relevante da formação dessa história posto que representou um retrocesso para as conquistas negras. Além do fato de parecer que os Estados Unidos até hoje não resolveram seus problemas raciais, postos desde a formação nacional de seu território e população. Fato intrigante que estimulou esse artigo foi que sobre a  época abordada não se tem muitos livros a respeito, ao menos em português.

 

O filme como documento histórico

 

            Para a análise de The Birth of a Nation recorremos à Marc Ferro, um dos historiadores pioneiros no emprego de filme como fonte documental. Não no sentido da imagem objetiva da realidade, mas sim no status de revelador ideológico, político e cultural de uma determinada sociedade e de seus interesses em um determinado tempo. Esses fatores são observados nas sutilezas e entrelinhas das imagens expostas neste tipo de documento:

 

“Resta estudar o filme, associá-lo ao mundo que o produz. A hipótese? Que o filme, imagem ou não da realidade, documento ou ficção, intriga autêntica ou pura invenção, é História; o postulado? Que aquilo que não se realizou, as crenças, as intenções, o imaginário do homem, é tanto a História quanto a História.”[1]

 

            Ferro referiu-se aqui ao estudo dos filmes de ficção. O resultado do encontro entre o olhar produzido pela objetiva da câmera e o acontecimento fabricado para ser captado por este olhar, resulta numa imagem que tornou-se um documento. No estudo desse, não é posto de lado a existência do recorte. Não existe a confiança no poder explicativo da imagem isolada. O historiador neste caso, ao contrário do espectador desavisado, não participa do processo de simulação: sua função é desvendá-lo, como nos propomos fazer com The Birth of a Nation. Expondo suas entranhas, procuraremos entender que tipo de percepção foi absorvida e revelada pela objetiva de D. W. Griffith.

            Baseados na proposta de Ferro, diferente da de Benjamim, acreditamos que o filme deve ser abordado não só como uma obra de arte, mas também como produto de uma época, uma imagem-objeto, cujas significações não são somente cinematográficas. O filme enquanto fruto do período em que se reformula conceitos de participação política e social do negro na sociedade americana engajou-se e mostrou uma visão redentora da existência da Ku Klux Klan. David W. Griffith é reconhecido como o “pai do cinema americano” e no filme em questão conta, entre outras coisas, a história da tristemente célebre instituição racista e discriminadora, vendo o problema por uma ótica facciosa e pessoal, chegando ao absurdo de apresentar a Ku Klux Klan como defensora dos direitos do povo americano, na medida em que perseguia e justiçava os que não correspondessem ao ideal de nação a ser formado: branca e protestante.

            Devemos ressaltar, contudo, que The Birth of a Nation, também não é simplesmente um documento histórico; esteticamente situado no formato ficcional tradicional. Mas vai além, sendo um poderoso agente histórico, especialmente, para o povo americano que o produziu e o assistiu. Griffith pensa seu contexto histórico a partir de um espetáculo passado fazendo desse filme uma obra de arte a medida em que inova e desenvolve técnicas de filmagens avançadíssimas, o que nos possibilita, hoje a realização um estudo histórico. O filme é, nesse sentido, um retrato representativo de sua época: técnica e cinematograficamente perfeito e inovador; ideológica e politicamente retrógrado e racista.

 

“Com efeito, ao término do século XIX, o ponto de vista de que o negro congenitamente inferior parecia tão amplamente aceito quanto o fora meio século antes. Os darwinistas sociais justificavam a posição secundária do negro alegando que, na luta pela sobrevivência, ele mal conseguia viver. Pessoas influentes endossavam essa opinião.”[2]

 

            The Birth of a Nation é contaminado pelo uso político, como definido por Benjamim, “no momento em que o critério da autenticidade deixa de aplicar-se à produção artística, toda a função social da arte se transforma. Em vez de fundar-se no ritual, ela passa a fundar-se em outra prática: a política."[3] . Mais que isso, a técnica de produção do filme como obra de arte é que permite sua difusão massiva. Pelo seu próprio custo produtivo, o filme é uma criação artística que pertence à coletividade e é especialmente feita para ela.

            Pelas palavras de Ferro, o historiador também deve se ater aos procedimentos aparentemente utilizados para exprimir duração, ou ainda às figuras de estilo que transcrevem deslocamentos no espaço, etc., pois estes podem, sem intenção do cineasta, revelar zonas ideológicas e sociais das quais ele não tinha necessariamente consciência, ou que ele acreditava ter rejeitado.[4] Ismail Xavier explicita melhor este tema:

 

"No cinema, as relações entre visível e invisível, a interação entre o dado imediato e sua significação tornam-se mais intrincadas. A sucessão de imagens criadas pela montagem produz relações novas a todo instante e somos sempre levados a estabelecer ligações propriamente não existentes na tela. A montagem sugere, nós deduzimos. As significações se engendram menos por força de isolamentos (...), mas por força de contextualizações para as quais o cinema possui uma liberdade invejável. É sabido que a combinação de imagens cria significados não presentes em cada uma isoladamente."[5]

 

            O engajamento preconceituoso de Griffith é facilmente percebido em seu filme, desde a ambientação da Guerra mas principalmente no tratamento destinado à mulher e principalmente, pois foco desse texto, ao negro em que sempre aparece como baderneiro, pouco sério ou mesmo provocador de conflitos. O negro é mostrado como um indivíduo que necessita, como uma criança que o monitorem e direcionem seus atos para que não façam besteira, é mostrado feliz submisso[6]. O medo branco em relação a ascensão social e política negra fica claro e por isso o negro é representado roubando a mulher do branco. É portanto aí que se justifica o renascimento da Klan comprometida em defender os direitos dos brancos no país contra as influências indesejadas negra, judia e católica.

            Podemos pensar nesse momento em algumas visões colocadas no decorrer das quase três horas do filme. Como a relação simbólica dos jovens casais brancos do norte com os do sul e deles com a nação, indicando que é do relacionamento desses jovens que está nascendo a nova nação reunificada. No entanto é preciso atentar para o fato desses casais serem brancos, ou seja, o novo projeto de nação que estava sendo formado era de um país branco o que exclui o negro. Dessa trama romântica podemos traçar relações com os fundamentos da identidade nacional, a medida em que se desenrola entre uma mulher do sul e um homem do norte e somente a união deles é que possibilitará a concretização desse amor, metaforizando que apenas a união do sul com o norte possibilitaria o nascimento dos Estados Unidos enquanto nação.

            Outro elemento de problematização aparece nesse momento pois essa união não é uma junção qualquer. O casamento entre brancos e mulatos ou negros representa uma ameaça a esse sonho romântico, porque a miscigenação iria atrapalhar o projeto de domínio do poder relacionado exclusivamente a raça branca. A segregação portanto é parte de um projeto político bem articulado.

            Pode-se, com isso estabelecer paralelos entre a idéia de raça e a de destino nacional a medida em que o filme sugere que apenas com a ordenação racial da sociedade é que se alcançaria a paz ( figurada na cena final em que aparece Cristo). Portanto a tese defendida por Griffith é que apenas por meio do racismo é que a nação poderia organizar-se e desenvolver-se. A chegada de Jesus no final pode ser interpretada como um ideal de cruzada, uma comparação em que a Guerra Civil apresenta-se como uma “guerra santa”. Por outro lado podemos analisar essa mesma cena significando que finalmente poderia-se alcançar os objetivos da nação, posto que seus alicerces já estavam fundados e que a partir disso a “paz” reinaria.

            O filme e o ressurgimento da Ku Klux Klan podem ser interpretados com uma resposta do medo do branco, principalmente, sulista que já havia nesses tempos perdido representação e poder político. Tendo em vista que o negro é associado a idéia de desordem e baderna, a presença da KKK significa uma esperança de reorganização do caos, por meio da volta do branco ao poder. Para a concretização do ideal dessa congregação de pessoas encapuzadas tem-se como meta o combate a miscigenação como meio de isolar uma doença. O estupro de mulheres é o apelo que justifica a necessidade da presença organizada da Klan, pois esse seria o futuro que se traçaria com a permanência do negro no poder.

            Essa contextualização pareceu-nos necessária, posto que a questão fundamental para o historiador é situar o filme no momento histórico em que foi produzido - aqui ressaltamos o redespertar do racismo - e nas diferentes épocas históricas em que é recebido, pois um filme pode ser lido de maneira diferente e mesmo inversa, em dois momentos de sua história.[7] Outra vez, Xavier detalha pressupostos fundamentais:

 

"... ganha toda ênfase a importância da pergunta que o observador dirige à imagem em função da sua própria circunstância e interesse. Afinal, na condição de espectador de um filme de ficção, estou no papel de quem aceita o jogo do faz-de-conta, de quem sabe estar diante de representações e, portanto, não vê cabimento em discutir questões de legitimidade ou autenticidade no nível da testemunha de tribunal. Aceito e até acho benvindo o artifício do diretor que muda o significado de um gesto - o essencial é a imagem ser convincente dentro dos propósitos do filme que procura instaurar um mundo imaginário."[8]

 

            Quanto à questão da recepção social do filme, sabemos que ela foi impactante, posto que esse trabalho é considerado um mito na história do cinema mundial, foi feito para ser uma marco, graças ao desenvolvimento de técnicas que seu diretor introduziu na linguagem narrativa. The Birth of a Nation foi um golpe de sorte para o departamento de propaganda da KKK, pois serviu para amplificar os medos em relação ao negro para a sociedade branca. Adaptado dos romances de Thomas Dixon, o filme obteve popularidade imediata e duradoura;

 

“... no mais puro estilo romântico, o filme retratou os homens travestidos do Klan da reconstrução, envolvidos em feitos de cavalaria e de vingança de crimes bestiais cometidos por ex-escravos. Durante vinte anos, o filme foi exibido e reprisado em cinemas de todo o sul; em 1962 foi novamente mostrado numa reunião do Klan em Atlanta.”[9]

 

            Através da leitura de Ferro, procuramos analisar no filme principalmente a narrativa, o cenário, o texto, e as relações do filme com o que não é filme: o contexto em que foi produzido, destacando as principais questões abordadas; procurando, dessa forma, compreender não somente a obra em si, como também a realidade histórica que ela representa.[10]

            Se transpusermos as noções de apropriação das representações culturais propostas por Chartier para a leitura do cinema em seu sentido histórico, talvez seja possível entender a verdadeira complexidade desse documento diferenciado: o filme. A noção de apropriação, compreendida em termos mais sociológicos do que fenomenológicos, tornaria viável avaliar as diferenças na partilha cultural, na invenção criativa que se encontra no âmago do processo de recepção.[11]  Para tanto, necessitamos de um exame da relação muito estreita entre três pólos: o próprio conteúdo (o filme), o objeto que comunica o conteúdo (a forma do filme) e o ato que o apreende (a ação e a reação do espectador).[12]

            De fato, o que está colocado para o historiador que se interroga sobre a relação entre cinema e história é realizar uma leitura histórica do filme e uma leitura cinematográfica da história, sendo que esta última exige que o historiador perceba qual é sua própria leitura do passado.[13] Ferro afirma que, para o olhar do historiador, o imaginário é tanto história, quanto História.[14] O filme é alimentado e alimenta esse imaginário que queremos captar. É sabido que a leitura da imagem não é imediata, pois provém de todo um universo mediado pelo olhar produtor e receptor das imagens.

 

A nova situação negra após a Reconstrução: o retrocesso

 

            Durante o período da história americana, conhecido como reconstrução (1865-1877), a nação trabalhou para reunificação. Foi uma época de crises e confusão que trouxe mudanças radicais para o sul inclusive a garantia do privilégio da cidadania para ex-escravos libertados.

            Nesses tempos o Congresso aprovou uma série de leis referentes à restruturação. Essas leis incluíram o ato de reconstrução de 1867, a Décima Quarta Emenda da Constituição, promulgada em 1866 e adotada em 1868 e a Décima Quinta Emenda. Cada uma dessas leis nacionais seria posta em vigor em cada estado da união, através delas, o governo nacional abriu caminho para garantir os deveres e privilégios da cidadania aos libertados. A Décima Quarta Emenda da Constituição tornou os negros americanos, cidadãos: “todas as pessoas nascidas ou naturalizadas nos Estados Unidos (...) são cidadãos dos Estados Unidos e de qualquer estado onde residam”.[15] Para ter certeza de que todos os estados reconheceriam os negros como cidadãos o Congresso preceituou que os Estados Confederados deveriam concordar com os termos da décima quarta emenda, no entanto o Tennessee foi o único que concordou com os termos, os outros dez se recusaram e continuaram fora da União. Para onde posteriormente foram enviadas tropas da federação.

            Uma das partes do ato de reconstrução dizia respeito à votação, e permitia que negros votassem e ocupassem cargos políticos. Antes, para que o cidadão branco pudesse votar era exigido que prestasse um juramento de obediência aos EUA, no qual assegurava que nunca havia lutado contra a União ou ocupado qualquer cargo sob a Confederação. Aos homens que ocuparam tais cargos era negado o direito de votar ou ocupar cargos políticos, embora muitos deles tivessem sido líderes políticos do sul antes da Guerra Civil “feitas as contas, cerca de 200.000 ex-confederados haviam seu perdido seu direito a voto e, assim, tendo esses homens perdido tal direito, os sulistas brancos perderam a maioria no Congresso. Após o ato de reconstrução aproximadamente 1.300.000 homens registraram-se como eleitores nos dez estados confederados que se haviam recusado à acatar a décima quarta emenda. Entre esses, 660.000 eram brancos que pronunciaram o juramento de obediência e 700.000 eram negros que votavam pela primeira vez[16] A votação não foi a única experiência política para os negros sulistas. Pela primeira vez também, poderiam ocupar cargos oficiais. Caso fosse eleito poderia tomar parte ativa na promulgação das leis e na elaboração da constituição para o seu estado. Os delegados às Convenções Constitucionais trabalhavam juntos na elaboração de novas leis. Essas novas Cartas prometiam maiores oportunidades a todos os cidadãos ricos ou pobres, brancos ou negros. Pela primeira vez no sul a constituição estadual proporcionaria, por exemplo, escolas públicas para todas as crianças.

            Também no governo nacional os negros assumiram papéis importantes. Durante os anos de reconstrução “vinte e dois deles foram eleitos para o congresso dos Estados Unidos, sendo que dois serviram no Senado (Hiram R. Revels – Carolina do Norte e Blanche Bruce – Mississipi).[17]

            O enfraquecimento do governo de reconstrução se deu no final de 1870. Inúmeros fatos concorreram para repor o poderio político nas mãos dos antigos líderes sulistas. Como fatores importantes podemos citar a ação violenta da Ku Klux Klan fazendo com que os negros passassem a ter medo de votar resultando assim em um desânimo em participar de eleições. Ao perderem seus privilégios de eleitores não tinham mais oportunidade de tomar parte na elaboração de leis. Gradualmente, um número cada vez maior de ex-confederados foi recuperando o direito de votar, conseqüentemente as leis que haviam dado liberdade política aos negros sofriam uma profunda reversão. No fim de 1870 outro grande fato foi a retirada das tropas federais dos estados do sul. Com isso os líderes ex-confederados favoráveis a escravidão, encontravam-se mais livres.

 

“Os anos posteriores a Guerra de Secessão figuram entre os mais dramáticos da história americana. Sua interpretação suscita vivas controvérsias: pela primeira vez, negros puderam votar, ocuparam postos oficiais na administração e no governo dos estados sulistas e se substituíram a uma aristocracia que tinha até então reservado par si a direção dos negócios. Mais do que a Independência ou a Secessão, a Reconstrução apareceu aos historiadores americanos como a encarnação do mal, uma espécie de hiato numa harmoniosa evolução liberal.”[18]

 

            É neste contexto que vemos fortalecer a Ku Klux Klan. O medo mais que as leis, foi empregado para impedir os negros de votar. Os membros do clã juravam sigilo. No começo os membros da KKK pretendiam tirar vantagem dos temores e superstições dos ex-escravos. Aparições fantasmagóricas durante a noite e ameaças contra a votação foram as primeiras atividades do grupo, mas a medida que essa tática foi perdendo efeito suas ações tornaram-se mais drásticas e descontroladas. Em 1871, o Congresso deu início a ação contra a KKK, tentando diminuir-lhe as atividades, mas não conseguiu realizar seus propósitos. Milhares de negros eram impedidos de votar por meio do medo e da violência. A partir de 1890 as reações contra a cidadania integral dos negros tornaram-se mais intensas e a discriminação racial espalhou-se. Através de leis e costumes que reforçavam a discriminação, os negros foram empurrados de volta a uma posição de inferioridade.

            Por volta de 1900 os negros sulistas viviam sob três desvantagens dominantes. De modo não oficial haviam perdido seu direito de votar e de elaborar leis. As oportunidades de trabalho eram limitadas e inúmeros negros viviam em condições precaríssimas. A terceira desvantagem era da segregação racial. Essas circunstâncias lhes proporcionavam reduzidas chances de uma melhoria de futuro.

            Para afastar o negro do poderio político que havia obtido durante os anos da Reconstrução, os líderes políticos tudo fizeram para lhe tirar o direito de votar. Não podiam agir diretamente pois tinham que obedecer aos preceitos da décima quinta emenda, que declarava não poder ser negado ao cidadãos o direito de votar por causa de sua raça, cor ou condição de servilismo anterior. Era evidente que qualquer impedimento para votar deveria ser baseado em outras condições que não as raciais. Elaboram-se leis estaduais registrando exigências escritas para votar como a propriedade de terras e taxas eleitorais. Essas leis acabaram por afastar milhares de negros das urnas, impedindo também que brancos pobres comparecessem. Em outros estados se pensou outras formas de discriminação que não prejudicasse o branco, inventaram então “testes culturais” que verificariam se o eleitor compreendia os assuntos sobre os quais teria que votar. Porém ficava a cargo de um funcionário eleitoral a tarefa de aprovar ou não as pessoas, o que fazia com que mesmo negros cultos como advogados, professores e outros fracassassem no teste.

            Em 1900, cerca de três quartos da população negra americana ainda vivia nas áreas rurais do sul, embora muitos houvessem se mudado para as cidades,  principalmente as do norte em busca de melhores condições de vida, trabalho e escolaridade.

 

“Em todos os censos de 1790 a 1900, pelo menos 90% da população negra dos Estados Unidos vivia no sul. Depois de 1910, os negros começaram a se mudar do sul para o norte e o oeste.”[19]  

 

            Durante esses anos de intensa migração (1914-1920) meio milhão de negros se aglomeravam nos centros industriais do norte. Com isso o norte passou a ter problemas, pois sua moradia era limitada e em bairros segregados das cidades. Assim, o elevado número de negros que se mudaram causavam um excesso de habitantes em tais bairros e era-lhes proibido procurar alojamento nos bairros brancos. As casas dos bairros negros eram geralmente muito velhas e necessitavam de reformas. As condições sanitárias deficientes e a higiene precária agravavam o alto índice de doenças. Embora existissem  dificuldades em ambientar-se no novo meio, muitas pessoas encontraram o trabalho e as  melhores escolas que buscavam. Alguns negros conseguiram instrução e assim um melhor nível de vida. Assim foram formadas algumas organizações que planejavam seu trabalho em prol da raça negra[20].

            Essa migração negra pode ser considerada também um triunfo do racismo sulino.

 

“Assim, as duas décadas decorridas entre 1890 e 1910 mostraram-se desastrosas para os americanos negros os direitos políticos e civis foram sacrificados. A educação que entre 1865 e 1900 havia reduzido o analfabetismo negro de 90% para 30%, dependia agora do capricho de brancos. Economicamente o agricultor negro estava reduzido a peão ou, então, aos empregos de remuneração mais baixa na indústria sulina. Além do mais, apesar das tentativas de abertura de Theodore Roosevelt, o progressimo pouco oferecia ao negro. No Norte e no Sul, consciências foram tranqüilizadas por versões populares pseudo-científicas de darwinismo e genética, que propunham diferenças raciais fundamentais. Uma romantização xaropada de um Velho Sul aristocrata, na ficção e no folclore, colocou um véu sobre suas falhas contemporâneas: estagnação e corrupção políticas, atraso cultural e econômico, violência, analfabetismo, ignorância.”[21]

 

            Por fim tristemente a legislação a favor dos negros só é recuperada nos ano 60 (1964-68) sob o governo de Johnson, resultando de um longo processo de reposicionamento negro na sociedade desde os tempos de Kennedy, provenientes das lutas pelos direitos civis. Temos como emblema dessa luta o líder negro Martin Luther King e como marco histórico a Marcha de Washington. Porém, nesses tempos, um terço da população negra ainda vivia em plena miséria nos Estados Unidos e na prática a violência da polícia ainda era muito grande, pois a mentalidade, a ação social e principalmente a economia não assumiam formas diferenciadas.

 

Notas

 

[1] Marc Ferro. "O Filme. Uma contra-análise da sociedade?", Le Goff, J & Nora, P. (orgs.) História: novos objetos, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1988, p. 203.

[2] WOODWARD, C. Vann (org). Ensaios comparativos sobre a história americana.  São Paulo; Cultrix, 1972, p.177.

[3] Benjamim, W. “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” (1935/1936), Walter Benjamim - Obras Escolhidas: Magia e Técnica, Arte e Política. S. P., Brasiliense, 1985 (pp. 165-196), p. 171-72.

[4] Ferro, M., op. cit., p. 16.

[5] Xavier, I. "Cinema: Revelação e Engano". O Olhar. (A. Novaes, org.) São Paulo, Cia. das Letras, 1988, p. 368.

[6] Aqui podemos traçar um paralelo com o romance A cabana do Pai Tomás, onde o negro é tratado como um ser inferior e submisso, mas com a diferença de que no livro ainda é digno e capaz.

[7] Ferro, M. Cinema e História. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1992, p. 18.

[8] Xavier, I. loc. cit., p. 369.

[9] HAAS, Bem. Ku Klux Klan. Rio de Janeiro; Dinal, 1966, P. 66- 67.

[10] Ferro, M., op. cit., p.327.

[11] Chartier, R. "Textos, impressão, leituras", Hunt, L. op. cit., pp. 232-33.

[12] Ibid., pp. 220-21.

[13] Ferro, M. op. cit., p. 19

[14] Ibid., p. 77

[15] MORSBACH, Mabel. O negro na vida americana. Rio de Janeiro; Record, 1969, p. 122.

[16] Idem, p. 123.

[17] Idem, p. 126-127.

[18] FOHLEN, Claude. América anglo-saxônica de 1815 à atualidade. São Paulo; EDUSP/Pioneira, 1981, p.187.

[19]MORSBACH, Mabel, op cit, p. 262. Também sobre a imigração do negro para o norte podemos citar o romance Black Boy: infância e juventude de um negro americano, autobiografia de Richard Wright, que passa sua vida aguentando a submissão ao branco sulista, mas juntando dinheiro para ir para o norte em busca de uma vida mais digna.

[20] Como a NAACP – National Association for the Advancement of Colored People -  que teve como um de seus líderes William Edward Burghardt Du Bois um dos intelectuais  - negros – mais importantes dessa época que fundou e editou a revista “The Crisis”, onde dava publicidade aos trabalhos da NAACP com a apresentação de histórias de sucesso negros e de trabalhos de artistas negros. Foi nesse periódico que Du Bois escreveu sua crítica ao filme The Birth of a Nation.

[21] BRADBURY, Malcolm & TEMPERLEY, Howard.  Introdução aos estudos americanos. Rio de Janeiro; Forense Universitária, s/d, p.203.

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

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