ALMAS (A)PENADAS

 

 

NILZA MENEZES

CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO HISTÓRICA - TJ-RO

cendoc@.gov.tj.com.br

 

ABERTURA

 

            São comuns as histórias de assombrações em prédios antigos, cemitérios e locais que tenham marcado de alguma forma a memória coletiva. Lugares mal assombrados, como são chamados, existem em todas as cidades. As almas conhecidas e anônimas fazem parte da vida dos habitantes. São percebidas por algumas pessoas, nem todos sabem vê-las.

            Os fantasmas apresentados neste texto são habitantes do prédio do Fórum Criminal de Porto Velho. Eles são vistos ou percebidos por servidores que exercem funções em espaços diversos, principalmente os seguranças que trabalham a maior parte do tempo em períodos silenciosos como à noite, aos domingos e feriados. Geralmente, aparecem na biblioteca. Até no banheiro do Tribunal de Justiça, conforme informam os servidores, a alma de um rapaz que teria sido assassinado naquele prédio apareceu.

            O prédio onde o fenômeno é percebido com maior força é o do Fórum Criminal.  A história do local remonta à época de sua construção na década de 40 do século XX. Antes disso, as atividades do judiciário da região funcionavam em diversos locais provisórios remontando a trajetória da justiça às atividades de Santo Antonio do Rio Madeira em funcionamento desde 1912 como comarca pertencente ao Estado do Mato Grosso e Porto Velho, pertencente ao Amazonas (Menezes, 1999).

            Antonio Cantanhede, em Achegas para a História de Porto Velho, informa que, anteriormente, o prédio da justiça de Porto Velho funcionava na Rua Prudente de Morais, n. 1944, e registra dessa forma a construção do prédio para funcionamento do Fórum:

 

Em 1947, o Exmo Sr. Tenente Coronel Joaquim Vicente Rondon, Governador do território, reconhecendo que faltava ao fórum desta Comarca onde funcionar, de modo independente, adquiriu, por contra, êsse prédio, que continua a ser utilizado para o fim a que foi destinado. No momento era Juiz de Direito Substituto, o dr. José da Silva Castanheiro,...(Cantanhede, 1950).

 

            A cerimônia realizada para lançamento da pedra fundamental para construção do prédio também foi descrita por Cantanhede:

 

No dia 05 de novembro de 1949, pelas dez horas do dia, acompanhado de grande massa popular, das autoridades do território e de representantes do Clero, chegava à Praça Rondon o Exmo. Sr. Dr. Joaquim de Araújo Lima, Governador, para a solenidade do lançamento da primeira pedra do edifício que será o futuro Palácio da Justiça de Porto Velho.

 

Com a palavra o revdmo. Padre Luiz Venzon, Diretor do Ginásio Dom Bosco, lançou a benção à laje que devia cobrir a cavidade onde iam ser depositados, em recipiente de vidro, hermeticamente fechado, ata do cerimonial, um número do “Alto Madeira”, moedas divisionárias de circulação no momento, e o discurso alusivo ao ato proferido pela professora, Senhorinha Helena Ruiz (Cantanhede, 1950).

 

            O prédio passou por diversas reformas, encontrando-se hoje completamente modificado. Do período chamado “tempos do território” restam apenas os processos antigos e documentos históricos já arquivados nos setores próprios. Funcionários e juizes já morreram ou foram aposentados.

O Desembargador Fouad Darwich Zacharias, falecido em 1989, indicado pelo colaborador Samuel como sendo uma das almas penadas a circular pelos corredores do prédio, esteve à frente do processo de criação do Judiciário do Estado em 1982. É personalidade de importância para a memória da instituição por todos os significados da sua figura. As várias facetas da sua personalidade tornaram-se públicas. Era um homem enérgico, realizador, administrador, representando o bem e o mal em decorrência do poder exercido dentro do judiciário, criando-se em torno da sua imagem uma aura com diferentes visões.

As outras personalidades citadas são o Desembargador Lourival, homem que impunha respeito e medo, o Dr. Abílio, advogado bonachão e bem sucedido que freqüentou diariamente por muitos anos o espaço do Fórum. Funcionários e usuários do passado e do presente mantêm o equilíbrio da memória. Assim como na vida doméstica existe uma memória dos mortos da família, na vida pública ela também é reproduzida.

As entrevistas coletadas para este trabalho trazem várias visões do sobrenatural e a forma como cada um se relaciona com o assunto. Não tivemos a pretensão de explicá-las nesta breve abertura; a idéia é apenas dissertar sobre a nossa experiência com o espaço e o fenômeno.

Com certeza não esgotamos o assunto, e a apreensão que nos foi possível se apresenta pela experiência da História Oral (Meihy, 1996) que faz parte dos projetos do Centro de Documentação Histórica do Tribunal de Justiça.

O motivo da pesquisa deu-se em face dos comentários sobre o assunto, que é comum entre os servidores. Na iniciativa do trabalho nem todos se dispuseram a falar e muito do que falavam não foi apreendido quando do ritual da entrevista. No momento em que o gravador foi ligado, percebeu-se que em alguns casos ocorreu certa inibição e um controle do que falar e como falar.

O assunto, corriqueiro entre os servidores, teimou em continuar à sombra, por isso para começarmos as entrevistas tivemos algumas dificuldades. Um dizia que era o outro que tinha visto. Relutaram em fazer afirmações mais claras, e muito do que se falava pelos corredores em conversas informais não foi possível apreender quando das gravações. Algumas pessoas tomaram cuidado nas afirmações, não falando o que falavam informalmente.

Ao saber que sua voz será apreendida, muitos colaboradores deixam de ser narradores e passam em alguns casos a agirem como espectadores. Em vários casos, após darem a entrevista, pediam para desligar o gravador e perguntavam o que eu pensava do assunto e se eu via alguma coisa.

Um bom exemplo é o do colaborador Francisco. Ele em conversas preliminares demonstrou ter muitas histórias sobre o tema, entretanto, no momento da entrevista, ficou reticente, inseguro e colocou seu companheiro de trabalho na entrevista e sempre que contava algum fato pedia a confirmação do colega e ao mesmo tempo, também buscava na pesquisadora o apoio para suas informações.

            Talvez em razão do tema, as pessoas sintam-se inseguras em afirmar suas intuições, receiam a interpretação que pode ser dada e acabam por não serem completamente sinceras quanto aos sentimentos. Existe o receio de não serem interpretadas corretamente em face do preconceito religioso que temem sofrer, ou, mais certo, desenvolvem o medo de serem consideradas loucas ou idiotas. Por isso, muitas das conversas de corredores ocorridas informalmente não foram confirmadas.

Por outro lado, também ocorre o contrário. O colaborador Samuel, seguro, amparado nos seus conhecimentos e experiências espirituais, justifica sua lucidez e sobriedade no trabalho, garantindo assim o seu discurso.

            Francisco e José que se identificaram como católicos conhecem os fantasmas vestidos de branco que passam, contudo esses fantasmas não possuem consistência, são líquidos. Eles estão presentes no espaço, não têm dúvida quanto a isso, e, apesar de não afirmarem sentir medo, também não assumem uma convivência tranqüila com esses seres. Ficam assustados e reticentes com coisas que não conseguem explicar. No espaço do mundo católico, os mortos ou vão para o céu ou para o inferno, por isso seres que vagam são fantasmas nem sempre identificáveis. São almas penadas, mas não são decodificadas como para os espíritas. É o que percebemos nos discursos de Wanda, Samuel e Marina. Eles conhecem os habitantes do espaço do hall, corredores, salas e biblioteca do prédio do Fórum. São seus conhecidos, havendo uma certa familiaridade e uma relação de troca entre vivos e mortos. Francisco e José não conhecem os fantasmas, mas percebem a sua presença pelos corredores.

Servidores evangélicos também foram contatados, mas alegaram nunca ter visto nada. Almas penadas não fazem parte do seu mundo, eles não as conhecem, entendem como manifestações do demônio das quais devem proteger-se, e se são manifestações do demônio não aparecem a eles que se protegem deste. Por isso, os servidores que se reconhecem enquanto evangélicos disseram não ter nada para falar, alguns até acharam graça do assunto, pois afirmam nunca terem visto nada e não sabem nada sobre o assunto.

Apenas o Sr. Pedro que é evangélico concordou em falar, embora não afirme ter visto qualquer fantasma, admite ter ouvido barulho, bater de portas, o que ele interpreta como algo estranho sem, contudo, reconhecer essa presença como de espíritos dos mortos. Entende como a presença de anjos bons e maus e que são parte das pessoas, sendo que, no seu entendimento, cada pessoa tem seu anjo recebido no nascimento. Esses anjos ele classifica de brancos e não brancos  e sem afirmar a cor dos não brancos, Pedro admite por meio do seu imaginário religioso a presença desses anjos dentro do espaço do judiciário. Diz nunca ter visto um fantasma, mas admite o fenômeno do barulho afirmado pelos outros colegas de trabalho.

            O colaborador Samuel deixa clara no início da entrevista a sua condição de trabalhador exemplar e a lucidez como forma de garantir suas afirmações. Foi possível perceber que Francisco e José que se declararam católicos tinham dúvidas e buscavam respostas. Samuel que se reconhece como espírita sabe das respostas. Sabe quem são os espíritos e até mesmo porque perambulam pelo prédio. Para Francisco e José as assombrações são anônimas, são vultos, evaporam. Para Samuel, eles são reais, possuem nome e estão no espaço por causas justas. Aquilo que para José e Francisco é irreal e sobrenatural; para Samuel é real, possui forma, fala em línguas estranhas, mas compreensível, manifesta-se e possui sentido.

            Durante a entrevista com Samuel que, depois de convidado, tomou a iniciativa de nos procurar, a sua fala fluiu naturalmente. José e Francisco quando procurados sentiram-se intimidados com o assunto e concordaram em falar após alguma insistência. A entrevista que era para ser individual acabou por ser em vários momentos; uma conversa fragmentada entre a entrevistadora e os dois colaboradores.

Na verdade o que eles vêem é uma imagem que reconhecem que está dentro deles. As imagens diárias, as tantas imagens guardadas e que atribulam os sonhos quando o corpo cansado dorme, mas em sono tudo continua sendo.

            Com a realização de entrevistas com os seguranças e com as funcionárias da biblioteca pudemos apreender dois tipos de fantasmas. Na biblioteca são usuários, tranqüilos, educados, que, conforme elas podem perceber, vêm em busca do saber e de informação.  As percebidas pelos seguranças são todas aquelas que no dia a dia do trabalho circulam pelos corredores, pelo hall de entrada do prédio: advogados, desembargadores, ex-funcionários e usuários em geral, sejam réus ou familiares, formam o elo entre vivos e mortos, refazendo as relações.

            Há diferenças entre os fantasmas: a sobriedade e educação dos que freqüentam a biblioteca e a angústia, raiva, ódio e dor dos que freqüentam as varas criminais e os corredores.

            As funcionárias da biblioteca, por exemplo, percebem outra classe espiritual distinta da percebida pelos seguranças. Tanto Wanda como Marina, que se vêem enquanto pessoas permeadas por um catolicismo espiritual, reconhecem as assombrações. Se elas não possuem rosto, possuem um grande significado porque estão naquele espaço com uma finalidade. Conforme Wanda e Marina, elas buscam conhecimento.

Assim como Samuel, Pedro, Francisco e José, que percebem a presença de seres que transitam pelos corredores e portaria, Wanda e Marina convivem com as almas que andam na biblioteca e com elas se identificam por serem como o público que realmente por lá transita. Essas almas possuem boa aparência, educadas, calmas que, conforme pode perceber Marina, estão em busca de mais conhecimento, ou mesmo de retorno para saber o que não puderam saber antes de partir, enquanto que as percebidas pelos seguranças são almas dos familiares de presos, advogados, funcionários, juízes e desembargadores. A porta de entrada é aberta para o mundo do bem e do mal, para as dores, raivas, por isso as almas são barulhentas, invisíveis, irreconhecíveis, anônimas, enquanto que no espaço da biblioteca, embora não íntimas por terem rostos que já se perderam, fazem as mesmas coisas que faziam antes da morte.

            Para Samuel, que trabalha no Tribunal praticamente desde a sua instalação e conhece todas as pessoas que transitam, sejam funcionários, juizes e desembargadores, como também advogados e partes que conhece em razão do tempo de serviço e em razão da sua personalidade interessada em conversar com as pessoas e obter informações, seu conhecimento sobre as vidas pessoais, comentários e características das pessoas aumenta.

José e Francisco são funcionários, exercem as atividades apenas na portaria em horários em que a movimentação é pouca. No período noturno, aos sábados domingos e feriados, acabam ficando desinformados da vida pessoal dos usuários da justiça e dos servidores. Eles permanecem mais distantes, sendo mais formais no trabalho. Isso pode ter influência no próprio entendimento deles para com as energias do lugar. O fato é que todos percebem o barulho, os vultos, mas para identificar essas almas é preciso que elas tenham sido codificadas.

A diferença do olhar de Wanda, Marina e Samuel é que eles aprenderam a relacionar com os espíritos. Suas mentes foram preparadas para o reconhecimento, conhecem os fantasmas, sabem como lidar com eles e sabem a função deles dentro do espaço.

No entanto, há neles a mesma identidade que Heloisa Starling observou nos fantasmas de Belo Horizonte:

 

“... os fantasmas se manifestam quando o brilho da noite suspende as horas e a meia-noite marca o instante de todas as transgressões, revelando o vazio de uma perda, a solidão de uma ausência, o abandono de um lugar...” (Starling, 2002).

 

Embora dia e noite os fantasmas do judiciário se mantenham presentes, podendo ser percebidos nas tardes, nos finais de semana e feriados durante o dia, à luz do sol, é durante a noite, principalmente por volta da meia-noite, conforme observou o colaborador Samuel, que eles se manifestam mais fortemente. Aproveitam o silêncio para poderem transitar mais livremente pelos espaços que já foram deles. Nas tardes, noites, finais de semana e feriados, quando os espaços ficam mais tranqüilos, juizes, advogados, funcionários e usuários já falecidos interagem com os vivos. Aproveitando da ausência da maioria destes, eles parecem sentir-se mais à vontade e fazem questão de serem notados por aqueles que sabem reconhecê-los.

A energia deles é percebida pelos guardas e funcionários que percebem seus vultos, ouvem bater as portas e as máquinas de escrever. Apesar de não existirem mais máquinas de escrever, já que todas foram substituídas por silenciosos computadores, elas ainda podem ser ouvidas pelos funcionários. Juízes e funcionários que já morreram interferem, derrubam objetos, perambulam pelo espaço que fazia parte de suas vidas.

Os fantasmas estão inseridos na tarefa diária do espaço, construídos pelo imaginário dos que trabalham no lugar e sobre ele possuem um entendimento pré-concebido.

            Mentes e ouvidos que sabem reconhecer os sinais sabem como descrevê-los porque sabem ouvi-los. Olhos que pestanejam de sono percebem seus vultos pelas madrugadas esgueirando-se pelos corredores e entrando nas salas para colocar suas energias nos espaços onde juízes, promotores e advogados vão estar trabalhando a suas atividades vão estar atingindo os interesses favoráveis ou contrários de alguém.

            Mesmo aqueles que não conheceram os mortos, percebem que há algo estranho no ambiente e, mesmo não reconhecendo as almas, porque não as conheceram quando vivas, percebem vultos e vozes. É como se eles nos dissessem: Eu não creio em bruxas, porém que elas existem, existem.

            Os fantasmas habitantes do prédio do Fórum Criminal não provocam pânicos. Alguns dos que vêem sentem um certo incômodo, por não entenderem e por não saberem como lidar com o sobrenatural, como é o caso de Pedro, José e Francisco. Admitem sentirem medo pelo desconhecido, mas parecem acreditar ou admitir que como as Assombrações do Recife Velho de Gilberto Freire, eles vêm sendo parte do modo de ser do lugar (Freyre, 1974).

            Os funcionários novos aprendem com os mais antigos a conhecerem os fantasmas, muito embora não conheçam a aparência física, a voz ou características pessoais, respeitam suas presenças. Elas apenas passam, vultos brancos, fazem barulho, sem possuírem voz.

Outros, como o caso do segurança evangélico Pedro, possuem outro entendimento sobre o assunto, e, mesmo assim, preferem não tecer comentários contrários ao fenômeno. Sr. Pedro deixa claro que seu entendimento é outro, no entanto admite que anjos, bons ou maus, brancos ou não brancos podem estar no espaço e serem energia boa e ruim e interferirem no mundo dos vivos.

            Para Samuel, que por longos anos acompanha não só a atividade diária do judiciário, mas as histórias pessoas dos juízes, advogados e funcionários, os fantasmas são seus conhecidos. Consegue percebê-los porque conhecia a sua energia, as histórias pessoais, personalidade e atividades enquanto vivos. Guarda a memória do lugar a partir da sua criação.

Os fantasmas do judiciário gritam suas raivas e dores pelos corredores, escadas e salas, enquanto o silêncio permite ouvi-los. Buscam conhecimento na biblioteca, adentram o espaço e buscam interferir nas decisões dos juízes procurando resolver os problemas dos vivos ou problemas que quando vivos deixaram pendentes. Suas energias interferem, auxiliam ou prejudicam nesse espaço que, assim como delegacias, hospitais e presídios, trazem a carga de lidar com vidas e de interferir nelas.

Prédios antigos que tiveram representatividade na comunidade possuem seus fantasmas, que refazem as relações inseridas por meio da memória coletiva, sendo reconhecidos por quem aprendeu a reconhecê-los. Eles reproduzem a linguagem diária da atividade forense. O passado liga-se ao presente, reproduzido pelo imaginário adquirido dentro do espaço de trabalho, produzido por sentimento e entendimento próprio.

            Cada fala sobre os fantasmas do judiciário está inflada das práticas diárias. Os funcionários, principalmente os seguranças, acostumados com a entrada e saída dos usuários, acabam por ouvirem suas histórias e desabafos pelos corredores e por isso reproduzem seus sentimentos.

            O espaço do Fórum Criminal é um local onde todos os dias muitas vidas possuem suas trajetórias modificadas, para onde afluem pessoas que foram vítimas de alguma injustiça ou que praticaram alguma injustiça e, principalmente, local utilizado para controle dos vivos pelo Estado (Foucault, ......). Quando mortos adquirem o direito e a liberdade de ir e vir e de interferir, o que não era possível enquanto vivos. As amarras colocadas nos vivos, mesmo sem saberem explicar, são devolvidas transformadas pelos colaboradores.

            A religião de cada um interfere nas visões, no entanto eles existem sejam espíritos de mortos sejam anjos brancos ou não brancos, conforme disse Pedro. Eles existem e interferem, projetados no espaço onde possuem um passado, onde as histórias de vida foram ceifadas ou modificadas. A energia da passagem das pessoas pelo lugar deixou de alguma forma sentimentos sobrepondo ao que se acredita real. Há uma mistura de sentimentos, e o mal parece sobrepor nesse lugar, onde conta mais a postura enérgica dos juizes e desembargadores, a postura infeliz, amarga, de ódio dos usuários contrapondo com a imagem alegre, amiga do advogado.

            A fala de Samuel, pessoa de formação espiritualista acostumado a lidar com o sobrenatural, apresenta o sistema que envolve a existência dos fantasmas e suas funções. São réus, vítimas, advogados e juízes, fantasmas do próprio espaço da justiça. Podem ser mandados por vivos e assim aumentam essas personagens que aqui estão ou passeiam movidas por interesses pessoais. Aqueles de antes ou além do alcance da memória do colaborador são anônimos, são vultos apenas.

Os fantasmas do Judiciário representam a possibilidade de uma memória do lugar. Além das convicções religiosas pessoais de cada um dos colaboradores, percebendo-se entre os evangélicos a não crença em almas, em fantasmas ou qualquer espécie de manifestação proporcionada pelo poder do homem após a morte, como forma de cobrir esse caos no qual vivemos, mesmo assim eles crêem em uma manifestação dual das forças do bem e do mal através dos anjos. Apresentam-se em forma de anjos, brancos ou não brancos como observou o colaborador Pedro e são parte das pessoas que trabalham ou transitam pelo espaço do fórum.

A fala dos colaboradores Samuel, Wanda e Marina dotam de historicidade o ambiente. São usuários, funcionários, pessoas ligadas ao cotidiano da justiça que após a morte através da memória são inseridos nos espaços dos vivos.

Em um caso não gravado, o funcionário comentou o desaparecimento de documentos e objetos em uma sala, afirmando que cada vez que isso acontece um funcionário já falecido é lembrado, responsabilizado e chamado até que o documento aparece. Aqui percebemos que as dificuldades diárias, as falhas e acidentes de trabalho são repartidos com os mortos do lugar, até mesmo como forma de aliviar as tensões provocadas por esses incidentes. A memória do funcionário é preservada por meio dessa magia, de forma lúdica, sua falta é suprida com a sua presença espiritual interferindo no trabalho.

Heloisa Starling, em “Fantasmas da Cidade Moderna”, artigo sobre os fantasmas da cidade de Belo Horizonte, apresenta-os dentro da história do lugar, compondo a memória coletiva que vai sendo dissolvida dentro da transformação diária:

 

Os fantasmas de Belo Horizonte são como anjos abortados, incapazes de voar ou transmitir qualquer mensagem divina – é apenas o vento soprando no sopé da Serra do Curral ou entre as árvores do Parque Municipal. Apesar disso, por conta da patética insistência desses fantasmas em continuarem desenhando no espaço uma cartografia da perda, quem sabe alguma coisa permaneça inquietando os moradores de Belo Horizonte, sobretudo quando a noite desce da Serra e as imagens ficam menos precisas. Mas, pode ser, também, que essa inquietação venha de outro lugar: do doloroso pressentimento de que, a cada dia, por falta de assistentes e por forças das certezas duráveis que nada pode abalar, os fantasmas de Belo Horizonte estejam desvanecendo pela última vez. (Starling, 2002).

 

Se os fantasmas da cidade moderna vão-se desvanecendo, os que habitam o prédio do judiciário se cristalizam. Os espaços que eles ocupam são da sua área de interesse. Vão-se alojando nos processos em cada sentença, ficam impregnados nos papéis velhos, construídos pela consciência dos vivos sobre a representação do espaço realimentado todos os dias.

Os fantasmas do prédio do judiciário não são apenas lendas recontadas, são construídos todos os dias por aqueles que sabem vê-los. Eles dotam de historicidade o espaço de tantos sentimentos controvertidos e apresentam as tantas vozes que a justiça possui.

 

SAMUEL FRANCISCO DE LIMA

 

Funcionário do Tribunal de Justiça do Estado de Rondônia desde 1984, exercendo a função de segurança. Entrevista realizada no dia 12 de novembro de 2001.

 

            À noite, nessa longa jornada de trabalho que venho cumprindo dentro do Tribunal dentro desse Fórum, sem nenhuma falta, sem atestado, bastante sóbrio e trabalhando lucidamente.

            Eu não bebo, quer dizer, beber, eu bebo nos finais de semana, não misturo bebida com o trabalho, sempre gosto de estar lúcido no meu trabalho. Ultimamente, à noite não estou trabalhando mais, já trabalhei muito à noite, neste Fórum aqui já trabalhei muito à noite, mas todo tempo sério, sóbrio, bastante lúcido.

            O que acontece dentro desse prédio aqui, Fórum Criminal, muita gente que segue certas seitas, certas religiões são descrentes, elas não acreditam nisso, elas não crêem, mas na realidade existe, porque entre o céu e a terra existem muitos mistérios que nós seres humanos, muitos, não conhecemos, são poucos os que conhecem, mas é realidade, basta dar um mergulho no mundo espiritual para averiguar um pouquinho o que está acontecendo.

            Dentro desse prédio do Fórum Criminal, eu já encontrei várias almas penadas. São tipos de almas assim, almas de crianças clamando por justiça, almas de adultos clamando por justiça, almas de mulheres clamando por justiça, inclusive um amigo meu de trabalho, segurança que era meu parceiro de trabalho e se suicidou. No dia em que eu vim tirar plantão, seguido, ele me acompanhou o tempo todo, tanto que eu falei com os outros colegas que ele tinha aparecido. Ele era funcionário do Fórum, o nome dele era Ângelo.

            As crianças que andam por aí são filhas de réus e filhas de vítimas também, principalmente na primeira e segunda vara do júri. Na primeira vara do júri muito mais, porque a segunda é mais nova, tem pouco tempo. Na primeira vara do júri e dentro do salão nobre da sala de audiências e cartório, eu já presenciei o abrir e fechar de porta, ir verificar e a porta está trancada. Pessoas chorando, eu deitado conciliando o sono e elas falando, passando de um lado para outro, uma multidão, como se fosse horário de expediente pela parte da manhã, aquele barulho, olha e não tem ninguém.

            São poucas coisas que a gente entende, todas falam ao mesmo tempo, é difícil entender, uma zoeira, são lamúrias. Você tenta procurar compreender, mas a maior parte das coisas não se entende, mas para quem tem um pouco de experiência de vida no meio dessas coisas, com o sobrenatural são vozes pedindo justiça, clamando justiça.

            A própria alma de Abílio Nascimento que foi um grande jurista já compareceu dentro desse fórum depois de morto no salão nobre. Ele era maçom e ele veio.

            Consegui identificar porque, logo após a morte dele, eu tive no velório dele e quando foi logo após a morte dele, uns três dias depois, eu estava sozinho, ele sempre brincava comigo, e escutei: negão, cadê as muié? De repente: Negão, cadê as muié? Olhei e não vi ninguém. Pensei: era Abílio. Ele brincou comigo para mostrar que era ele.

            Sabe quando colocaram aquele, fizeram aquele mural em homenagem a ele? Ele não gostou muito não. Não gostou muito não. Ele achou que fizeram uma afronta pra ele, da sociedade. Ele não gostou muito daquilo, do mural. Ele não gostava dessas homenagens, ele achava que aquilo era bobagem. Abílio era uma pessoa com um grau de espírito elevado e está bem.

            Ele ficou meio triste com a família dele que ficou brigando por causa dos bens. Não se deve brigar por nada que se constrói na face da terra, nada que se constrói.

            Onde mais se escutam as vozes nesse prédio é nas varas do júri, terceira criminal, primeira criminal, na segunda criminal também existe, mas ali o lugar é mais aberto, mas na terceira criminal, execuções penais e na primeira criminal é muita movimentação das almas e muito barulho.

            Aqui no andar térreo também. No dia que o Ângelo morreu, começou a pipocar. Vim aqui embaixo e não tinha ninguém, tudo fechado, as lojas do outro lado da rua fechadas, eu vim fazendo a ronda, botei o pé na escada para subir, virou o negócio do lixo pelo chão, foi aquele barulho, eu vi, estava virado, pensei: o Ângelo está aqui. Juntei tudo e coloquei no corredor.

            Então, aqui dentro, espíritos de homens e de mulheres andam. Já vi sombras subindo as escadas, vendo o reflexo na parede. Quando estou sentado na portaria, vejo passar a sombra, sempre vi as sombras pela parede, subindo as escadas, descendo... Não dá para saber se as sombras são de homens ou de mulheres, é só a sombra que sobe e desce, abre porta, fecha. Ainda ontem na segunda vara ouvi o barulho, olhei tudo e não encontrei nada.

            As máquinas escrevem, é o barulho final de noite, final de semana, e nos horários que fica mais silencioso no prédio, também se ouve muito. O maior barulho é por volta das onze da noite até a uma hora da manhã, é aquele barulho, movimento, você vai olhar, não tem ninguém, acaba tudinho. Você volta, chega na portaria e começa de novo, pá, pá, pá....

            Já encontrei despachos na porta do Fórum, um alguidá com objetos dentro, um bocado de coisa. Peguei e levei pra casa. Eu não tenho medo de ficar nem de noite nem de dia, mesmo sozinho, sou acostumado.    

            Quando trabalhei com o desembargador César, lá na casa dele na Rua Calama, entre a Salgado Filho e João Goulart, ele morava lá onde hoje é o escritório dele. Do lado tinha uma mulher que morava com a família. Um dos homens que morava lá era mecânico, se chamava Vergalhão. Trabalhava numa empresa de ônibus como mecânico de lá. A mulher andava nos terreiros de macumba, mandando fazer trabalho.

            Uma noite, das onze e meia para zero hora, eu sentado lendo um livrinho de bolso que eu levava pra matar o tempo, aí passou um vulto por mim, pulando o muro, olhei e não vi ninguém, mas em questão de minuto escutei aquele grito da casa: ai, ai, ai, abriu a porta da casa, saiu pra rua gritando, só de calção, segurando nos testículos e gritando: ai, ai, ai, ai, larga, me solta. Eu fui abri o portão e do lado tinha uns apartamentos e um pessoal lá e o pessoal olhando e ninguém acudia, ele gritando: ai, ai, ai, ai, me solta pelo amor de Deus. Algumas pessoas que passavam pararam.

            Eu pensei: “já sei, foi o cara que passou por cima do muro”, fui lá, peguei ele, porque ninguém queria segurar, peguei e fiz umas três cruzes que meu pai me ensinou, pedindo para afastar, em nome do todo poderoso, Jesus, três cruzes e tal, acalmou, foi acalmando e ele não me deixou até às sete horas da manhã, ele ficou comigo no portão. Fiquei com ele no portão, não podia levar para dentro. Ele pedia, pelo amor de Deus não me deixe sozinho, aquela mulher deve ter feito alguma coisa pra mim. Pelo amor de Deus ele falava agarrado comigo. O médico na hora ficou olhando sem saber o que fazer, olhando sem acreditar. Quando ele viu que eu fiz as cruzes no caboclo, ele ficou me olhando, me observando, analisando...

            Tem gente que trabalha para o mal. Ele tinha problemas com a mulher dele, que morava com ele. Tinha problemas com ela. Foi uma dor nos testículos tão grande. Eu exorcizei, tirei o cara dele, eu freqüentei o circulo esotérico da seita e comunhão do bem.

            Quem pena por aqui também se chama Desembargador Fouad Darwich. O Desembargador Lourival Mendes, esse também pena por aqui, porque o Lourival ele foi um homem muito, muito, como juiz e Desembargador, como profissional excelente, mas o outro lado dele, muito rígido, assim pessoa de energia difícil de lidar. Hoje em dia é outro que pena por aqui com o Fouad Darwich. Tão cedo não saem daqui de dentro, a não ser que as famílias façam um trabalho bem feito, para que eles subam para outro patamar. Essas coisas existem, existem porque são comprovadas não só por mim, mas também por meus colegas que trabalham de plantão à noite. Todo mundo sabe que tem esse movimento aqui dentro. Escutamos barulho, barulho de máquinas trabalhando, som ligado. Ouve-se aquela música, chega lá perto e não tem nada. Nada, nada, nada.

            Na primeira vara do júri, ouve-se altas vozes de mulheres que seus filhos também foram mortos, condenados, elas pedem justiça. Essas crianças são anjos, são os filhos de pessoas que morreram gestantes e elas não conseguiram nascer, o cara matou elas gestantes, grávidas, elas não conseguiram ver a luz do dia.

            Que existe, existe. Não há dúvida de que dentro desse fórum aqui existem essas coisas. O que as pessoas crêem é no material, no que está vendo, e interessante eles acreditam em Deus e eles já viram Deus alguma vez? Então, por que essa fé tão grande em Deus? Então por que não acreditar que existem os espíritos? O caminho para chegar até Deus é Jesus. Jesus é o caminho, a vida e a luz. Não é só por Jesus, existem outras coisas. Ser humilde, ser humilde, ser decente, tratar todo mundo sem discriminação, seja de raça, de cor, nem de racismo, de nada. Olho no olho, rosto no rosto.

            Agora o Islamismo, a religião mais antiga do mundo que tem três mil anos, por aí assim, adorava o Deus na época, já existia um livro, uma bíblia deles escrita, antigo testamento, que o novo testamento só tem dois mil anos que é o cristianismo. Então, por que não, porque se existe Deus, existe o espiritismo, existem nós encarnados materialmente e existem aqueles que não encarnaram e existem aqueles que desencarnaram e nunca conseguiram subir até o patamar superior para reencarnar de novo até atingir a sua purificação. E nesses espíritos que tem aqui dentro muitos pedem justiça, outros foram injustiçados, e outros são ruins mesmo. Muitos vêm para atrapalhar mesmo.

            Tem muitas pessoas que têm filhos presos, irmãos, o que cometeu um crime e tal, muitos, não é só uma não, são várias que correm para terreiros para fazerem trabalho contra o juiz, para dar a sentença para o filho dela favorável. Tem muitas e isso eu já descobri pessoalmente também porque eles pedem como é o nome do juiz tal para fazer trabalho. Isso tudo reflete, são os espíritos maus que vêm para dar contra aquela sentença que é favorável àquela pessoa que foi injustiçada. O juiz vai dar uma sentença, ao invés de dar quatro ou dez anos de cadeia, eles mandam fazer um trabalho para retroceder e sempre tem espíritos maus para trabalhar.

            Os juizes sofrem com isso, a carga é tão grande que, além da carga material, a carga espiritual é maior, porque ele vai ter de manter muita calma, muita frieza para despachar com tudo aquilo e ele vai ter de estar preparado fisicamente e espiritualmente para suportar tudo aquilo porque fica muita “gente” no ouvido dele. Vem a defesa, as pessoas e os espíritos, e pessoas influenciadas por espíritos maus. Muita gente não observa, mas eles vêm falar com o juiz, choram, fazem aquela lamúria e sai na porta da rua esbravejando. Aquele choro é só aqui dentro, para o juiz, para a pessoa se compadecer. Ele se compadece. Agora se a pessoa for preparada não se deixa iludir por isso não.

            Mas que existe, existe. Tá, eu e outros colegas meus de trabalho todos eles, nenhum mente, eles já viram pelas paredes as sombras. Alguns não sabem definir, analisar o caso. O cara para analisar o caso precisa ter muita cabeça, experiência. Tem que ter luz, enxergar além do além. Porque a religião é o seguinte, ela ajuda a educar as pessoas e o espiritismo ajuda a desenvolver as pessoas.

            O espiritismo, na linha branca que chama, os que trabalham para o bem porque tem aqueles da linha negra que fazem o mal, mas de mal a pior eles vão nunca conseguir se levantar, ficam perecendo. Só vão conseguir melhorar quando se arrependerem do que fizeram e voltarem a praticar a boa ação.

            Sempre segui o espiritismo, sou filho de espíritas, meu pai era homem de poderes e altas orações, era paraibano. Nunca dizia coisas feias, nunca foi fazer despacho para o mal. Ele era de orações fortes. Minha mãe era espírita, saía para fazer trabalhos de um Estado para outro. Alberto Castelo Branco foi cliente dela, quando ele viajava só comia comida pela mão da minha mãe. Ela atendia ele. Ela era cearense, mas se criou no Pará. Ele pertencia à linha de umbanda, não era de tambor, era de rezas de orações, trabalho de cura. A pessoa chegava enlouquecida e saía no final do trabalho feito um santo. Eu fugia, correndo atrás de caminhão para acompanhar ele para fazer trabalhos nas colônias, onde chamava, eu queria ir junto.

            O que acontece dentro desse fórum é que aqui existem essas coisas. Todos os espíritos que andam por aqui estão ligados às coisas da justiça, a energia própria do prédio, que é uma energia muito forte, uma energia espiritual muito forte. A energia do pessoal que trabalha é boa, mas a energia do pessoal que anda por aqui é uma energia ruim. Por isso que acontecem esses tipos de assombrações, bate porta, fecha porta, arreda cadeira.

            Ali na portaria, lendo jornal, ou dando uma cochilada, passa a sombra, pof, pof. Passa. Nem ligo mais, só falo: “seja bem-vindo, seja de paz”. Eles nunca falam, são mudos. Agora se você ficar naquela sala do júri, de noite, sala 14, entre dez e onze horas da noite e tenta conciliar o sono, não consegue. Agora tem pessoas com capacidade para observar e outras não, elas dormem dentro de si e não percebem nada.

            No outro prédio, onde funciona o arquivo morto, aparecia o vulto de um militar que morreu enforcado peregrinando por lá, acho que pedindo alguma reza, alguma missa ou querendo dizer alguma coisa, ou deixou alguma coisa pendente e não cumpriu. Ainda existe lá até hoje, porque o Manoel Bonfim, que é segurança de lá, uma noite viu apareceu já com forma, não era só vulto, forma de pessoa mesmo, pessoa como espelho, transparente, entendeu? Já tem dezessete anos que ele morreu, ele se enforcou na casa dele, onde hoje é o arquivo. Ele era sargento do exército e enforcou-se por causa de problemas de mulher. A justiça confiscou o terreno porque não apareceu, acho que não tinha herdeiros, ninguém reclamou. Ele continua lá e lá chama arquivo morto.

 

PEDRO RAIMUNDO DE SOUZA

 

Segurança do prédio do Fórum Criminal. Entrevista realizada em 1º de julho de 2002.

 

            Trabalho como segurança tem 17 anos, trabalhei oito anos em outro prédio no juizado de menores.

            Fantasma cada um vê de um jeito.

            Olha, o comentário mais que tenho ouvido é daqui mesmo desse prédio. Já ouvi no Tribunal, já ouvi sim. Quem reclamou de lá, que estava trabalhando, foi um segurança que já e falecido, o seu Pedro. O seu Pedro, quando ele trabalhava lá, a gente às vezes parava e conversava e ele falava: “Rapaz, eu estou preocupado por isso, por isso e por isso”. Ele pressentia. Eu mesmo nunca vi.

            Sou evangélico. Adventista do sétimo dia. Não, nunca vi nada que achei que fosse anormal, agora ouvir a gente ouve bater porta e tal, mas ... assim porta batendo, mas nunca me preocupei com isso não, a porta batendo e tal...

            Agora uma coisa que nós adventistas aprendemos é com base na bíblia que aqui onde estamos tem anjos e eles nos ouvem.

            O conhecimento que tenho é como a bíblia descreve, é que são anjos é... com asas e que são seres... santos, e que eles estão procurando nos ajudar. A bíblia descreve é que, quando se reuniu a Trindade de Deus no céu, um anjo de luz que regia coral lá que era muito bom no céu perdeu seu posto e trouxe uma terça parte dos anjos do céu que se rebelou contra Deus e foi expulsa. Esses anjos que foram expulsos do céu, que faziam parte da Trindade de Deus lá, eles se tornaram maus. E aqui onde estamos, estamos conversando neste momento, tem anjos de Deus como tem os anjos que não são de Deus. Anjos brancos e não brancos.

            O não branco? Olhe quanto à cor eu não sei se mudou, você está perguntando cor literal? É... eu acredito que só o coração foi que se transformou, porque a gente aprende que deve fazer as coisas boas, mas se eu quiser fazer as coisas ruins, eu posso começar a fazer. Isso que os anjos foram induzidos, a questão de anjos brancos ou anjos de outra cor, o que sei é o coração deles, eles se voltaram. Ao invés de fazer as coisas boas, corretas, certas, eles induzem as pessoas a fazerem errado, eles também fazem errado. Eles assustam, amedrontam. Com certeza, nos corredores do fórum, têm os anjos bons e os maus.

            O motivo de eles andarem por aqui? É porque têm pessoas que trabalham diretamente e indiretamente sobre outras pessoas. Porque quando você trabalha você está fazendo algo em prol ou contra alguém. Pode ser algo que venha favorecer ou prejudicar. Aqui é cheio de pessoas dessa forma; o que eu vejo, que é meu ponto de vista particular, é que aqui é cheio, repleto de anjos bons e maus. Há aqueles que induzem as pessoas a fazerem as coisas corretas e outros que não. Eles vêm porque recebem ordens. Eu vejo assim: desde que nasci, recebi um presente todo especial de Deus. Um anjo da guarda. Neste mesmo instante, recebi outro anjo, um dos que foram expulsos. Deus concede um anjo que é presente de Deus, segundo o livro de todas as religiões, a Bíblia. Esse anjo escreve e relata tudo que falo e que faço, entende?  Então aqui, agora, onde estamos nós dois, tem pelos menos quatro anjos ouvindo o que estamos falando.

            Os seguranças sempre comentam que vêem as coisas, e eu não descarto a possibilidade de que haja as coisas. Como diz a Bíblia, existem os anjos de Deus e os que não são de Deus. As pessoas que levam vida desregrada assim deixam a vida aberta, sem religião e ele fica, tem mais acesso dos anjos maus e ele pode ver e fazer as coisas.

            De ver nunca vi nada, mas já ouvi barulhos estranhos, mas nada que me assustasse, mas também, crendo dessa forma que aprendi, nada me assusta, se são anjos e eu tenho certeza que Deus me deu um e ele vai me proteger. E se for um de luz, vai depender de mim se eu vou querer fazer a vontade dele ou não. Quando ouvi barulho, fui verificar, e a gente fica em estado de oração, vai pedindo a Deus forças. A gente não vai olhar tranqüilo não, vai receoso.

 

MARINA ALVES

 

Funcionária da Biblioteca do Tribunal de Justiça/RO. Entrevista realizada em 27 de fevereiro de 2002.

 

            Trabalho na biblioteca desde 1987. Antes, a biblioteca funcionava no outro prédio onde é o Tribunal de Justiça, depois passou a funcionar aqui no prédio do Fórum.

            Antes, lá no outro prédio, eu tinha a sensação de ver vultos entre as prateleiras. Quando eu falo, fico toda arrepiada (mostra o braço com os pelos eriçados).

            Uma vez cheguei à tarde - porque acontece mais na parte da tarde - e perguntei a outra funcionária: “Vanda quem está lá atrás?” A biblioteca, quando era na outra sala, no outro prédio, era comprida, e ela respondeu que não havia ninguém. Aí eu disse: “ah não, passou uma pessoa”, porque nessa época tinha um rapaz que era da polícia e ele sempre ia assim fardado. Eu insisti que tinha um rapaz lá dentro e ela disse que não tinha ninguém. Eu tive a sensação de que tinha visto alguém passando.

            Sempre as imagens que aparecem são de homens. Uma vez eu tive a sensação de que era uma mulher, a roupa era estampada, florida. Isso não é com freqüência, da minha parte.

            Estamos aqui no prédio do Fórum Criminal desde 1997, ano em que viemos para cá. O pessoal fala muito, mas aqui na biblioteca é sempre a sensação de que tem alguém, só que eu não vejo, eu sou sensitiva, sinto arrepios, tenho a sensação de que há alguém por perto. Tem um caso bem interessante, de um dia em que eu estava trabalhando e chegou uma colega minha de fora e foi me dar um abraço. Eu não sei se estava com ela ou se eu estava com a vibração e ela disse: “Nossa, Marina o que você tem que ficou toda arrepiada?” Eu disse que não sabia, que era o meu anjo da guarda, brincando com ela.

            Não sei o que é, às vezes penso que é porque a gente trabalha com uma área criminal, eu sempre digo de brincadeira para eles: “olha, estejam em paz, estudem bastante, mas não rasguem os livros”.

            Nós temos mais livros da área criminal e é onde eles parecem mais. Os criminais ficam mais para o fundo da biblioteca, lá na frente abrange tudo, mas a sensação é que eles estão sempre mais ao fundo. A sensação é de que tem uma pessoa e que vem numa prateleira, depois na outra, e eu acho assim, quando vou à área criminal, eu digo pra você, porque eu acredito no lado espiritual, não que eu veja, como te falei, mas quando eu vou para a área criminal, sempre faço uma oração, porque eu mexo muito com registro de acórdãos, então a sensação é essa e como eu digo pra você não é sempre.

            Já procurei me acostumar e quando eu venho nessa área e sinto alguma coisa, um arrepio, em pensamento eu penso em deus, peço luz pra quem viver e que venha em paz e praticamente já me acostumei.

            Eu sou católica, mas acredito na reencarnação. Sou uma católica não muito praticante, vou à missa, estudei em colégio de freiras, mas acredito nesse lado assim do espiritismo. Sou uma pessoa um pouco mística, estudo o lado espiritual, não tenho medo, fico sozinha aqui dentro, cansei de ficar aqui sozinha, saía depois das seis horas. Antes de sair, agradeço a Deus pelo dia, tudo em paz.

            Eu penso que talvez esses espíritos que andam aqui partiram sem completar os estudos, não terminaram a etapa de estudos, por isso eu converso com eles. No meu pensamento, eles voltam aqui para terminar alguma coisa que ficou, para terminarem de aprender, e penso que Deus deu a oportunidade para eles voltarem e aprenderem. Nunca penso que é um espírito mau, revoltado. Penso que são espíritos elevados em trabalho de transformação, é assim que penso, por isso eu digo: “Fiquem, estudem, mas não deixem eu ficar com medo. Que Deus ilumine vocês e sempre dê luz pra vocês e vão sempre no caminho da luz” (risos).

            Trabalhei em outros setores no Tribunal e nunca vi nada, não tinha essa sensação. Trabalhei em gabinete de Desembargador e nunca vi nada. Quando comento com as pessoas sobre essas sensações, eles dizem que isso é bobagem, e eu penso que até pode ser.

            Às vezes, a gente tem a sensação que um livro caiu, a gente vem olhar e o livro está no lugar. Ainda agora, ontem, a gente fica de costas para a biblioteca, por causa da reforma, mas a sensação que eu tinha era de que tinha alguém na porta, sempre. Eu comento isso com minha colega e o pior é que ela já percebeu e ficou quieta, mas eu, como não sei ficar calada, falo.

 

VANDA POSTIGO PEREIRA

 

Funcionária da Biblioteca do Tribunal de Justiça/RO, entrevista realizada em 27 de fevereiro de 2002.

 

            Trabalho na biblioteca há 17 anos, trabalhando no meio dos livros. Sobre algumas coisas que a gente vê na biblioteca, começou no outro prédio onde funcionava antes de a gente vir pra cá. Sempre esse mesmo rapaz, que eu sempre vejo aqui na biblioteca, ele estava na outra antes de a gente vir pra cá, o mesmo rapaz.

            Ele é assim: você sabe o Mauro Junior, que trabalha com o desembargador...? Um rapaz jovem, alto, parece com o Nonato, um rapaz assim, como eu já te falei, ele usa uma calça comprida cáqui, uma cor assim como café com leite, agora a camisa de mangas compridas, creme bem claro, tudo combinando. Agora o cinto dá para distinguir bem, é bonito, tem uma fivela dourada, a fivela é dourada, agora o que tem naquela fivela não dá para distinguir, porque é fino o cinturão, o cinturão não é grosso.

            Ele não é moreno, é uma pessoa bem clara. Agora tem outra história, da cintura pra cima não dá para distinguir porque como eu te falei sobre a altura das estantes, ele é alto, o rosto passa na altura dos livros em cima da estante, dá pra ver por aqui (faz gesto mostrando a altura que passa a cintura do rapaz), pra cima não dá para ver por causa dos livros que ficam nas estantes. Aqui, ele aparece constantemente.

            Os livros mais procurados pelo rapaz são da área penal. Ele folheia os livros, escuto o barulho. No outro prédio, escutava-se mais o barulho, lá dava para perceber que folheava os livros, a gente ia olhar e não via ninguém. Só de curiosidade, mas não via ninguém.

            Tem essa pessoa, e não sou só eu quem vê, tem outra pessoa, a Marlene do tabelião viu também, outro rapaz que estava de camisa vermelha, não sei se ela se lembra. Porque foi assim: o Rogério era estudante de direito e pesquisava muito e fazia estágio na caixa econômica e pediu para ter acesso à pesquisa dos livros, falei para ele ficar à vontade. Mas só que o Rogério era um rapaz de estatura média, ele ficou do lado esquerdo, eu vi aquela pessoa de camisa vermelha, estatura média que passou pelo lado esquerdo, mas eu fiquei na minha porque estou acostumada a ver os vultos passarem para lá e para cá, mas eu não tenho medo. Aí ela foi entregar uma garrafa, e perguntou se tinha gente lá dentro pra perguntar se queria café, e ela falou de um rapaz de camisa vermelha, e só tinha o Rogério que estava de camisa branca. Ela insistiu que tinha visto passar alguém de camisa vermelha, digo: “eu também vi, só que a pessoa que está aí dentro está de camisa branca, não é vermelha”. E ela disse: “eu heim!”.

            A sensação é sempre de estarem fazendo pesquisa nos livros, aqui nós temos julgados do Superior Tribunal Federal, eles têm comenta, no caso dos acórdãos. Um dia, estávamos eu e a Marina e ela foi lá embaixo pegar água e um livro caiu aqui dentro. Eu pensei: “ué, não tem ninguém”. Vi que o livro tinha caído e quando ela chegou é que eu fui buscar o livro. Estava aberto numa página de um julgado de Rondônia sobre caderneta de poupança, eu sabia o nome da pessoa do processo, esqueci. Então era um caso aqui de Rondônia, veja a coincidência, será que a pessoa ainda estava viva ou não. Será que ela voltou para ver o resultado?

            A área mais procurada é a área criminal, e essas pessoas que entram aqui, essas pessoas, eu acho assim, essas pessoas que dizem que quando a gente morre acaba tudo eu não acredito que seja assim, acredito que estamos aqui por uma passagem, no entanto não termina aqui. Nós continuamos em espírito e através desses espíritos nós ficamos por aí, porque - veja bem - eu acho que o caso da justiça é uma justiça que, digamos, dizem que quando a gente faz uma passagem, sempre aquilo que estávamos fazendo continua, como se estivéssemos nesse plano, sabe-se lá se alguma não teve interesse de saber como estava, se foi preocupado com alguma causa de algum amigo que estava em andamento e resolveu vir ver o término do processo.

            Eu fico meditando: sabe-se lá se esses espíritos não querem é ajudar essas pessoas, porque tem casos que as pessoas vão à justiça, que é o caso que são verdadeiramente culpadas mas nem todos, nem todos os casos são assim; às vezes, a pessoa é inocente.

            Sou católica, uma católica que crê muito no espiritismo, inclusive eu já fui operada no espiritismo em 1989. Nunca comentei com ninguém sobre essas visões, só entre nós colegas. Não me incomodo com elas porque quando a gente conhece um pouco do espiritismo você vê que aquilo não é mais novidade pra gente.

            Já freqüentei uma mesa branca, primeiro foi no Centro Bezerra de Menezes, depois conheci a Seara do Bem onde fiz um tratamento e em 89 cheguei a me operar. Antes, fiz uma cirurgia com médicos carnais no Hospital João Paulo II, quando era particular e não fui bem sucedida na cirurgia, tive problemas e decidi que não ia operar com médicos carnais, vivos, e sim no espiritual e resolvi meu problema graças a Deus. Foi assim, eu não vou mentir. Sonhei que chegava no hospital e tinha bastante médico, e uma senhora falava que eles não eram médicos carnais, e sim médicos espirituais.

            Eu sempre tive curiosidade de conhecer um pouco do espiritismo. Nesse tempo eu já trabalhava na biblioteca, no outro prédio, quando uma amiga falou que tinha ido na Seara do Bem e que lá tinha assim, que a gente dava o nome e era consultado. Fui, pedi pra sair mais cedo do trabalho e fui. Tive minha primeira entrevista no dia 22 de fevereiro de 1989 e operei no dia 29 de junho do mesmo ano e graças a Deus fui bem sucedida, então eu acredito.

            Antes eu consultei também com o Dr. Mauricio e ele é médico e me disse que eu não poderia operar, e sim que quando chegasse a hora eu ia encontrar um médico espiritual que ia me operar e ia dar certo.

            Tive a paciência de operar, inclusive muita gente do Tribunal de Justiça e da Academia de Polícia também fez tratamento. Eles passaram uns remédios que era agoniada e João da Costa (não parece ter sentido, não é melhor tirar essa frase?), remédios homeopáticos que era para curar o que eu tinha que era uma camada, um corpo estranho dentro da barriga, isso foi identificado na biópsia. Tive a paciência de esperar e acredito muito no espiritismo.

 

 

JOSÉ RODRIGUES ALVES

 

Segurança, entrevista realizada no dia 13 de novembro de 2001, no prédio do Fórum Criminal, no local e horário de trabalho do colaborador.

 

            Aqui nesse prédio do Fórum, trabalho já tem quatro anos, mas tenho 18 anos de trabalho no Tribunal de Justiça. Isso aqui, sobre as histórias de assombrações o que a gente ouve é bater porta, bater máquinas, rasgar papel, andar pelo prédio.

            Ver eu nunca vi, sou sensitivo, tenho sentido, inclusive, aqui nessa sala, aqui no segundo corredor, dentro da copa também. Já aconteceu de eu ir tomar água e passarem a mão na minha bunda.

            Aconteceu está com dois meses isso aí – (fala do Sr. Francisco que assistia à entrevista)

            Nós tava trabalhando, o Chico ficou lá fora, eu vim beber água. Vim tranqüilo e o Chico ficou lá. Cheguei no bebedor (fazendo gestos dos seus movimentos), coloquei ..., e pá, me arrepiei todo e falei: “olha, não estou mexendo com vocês, larga de mão que é melhor. Procura quem mexeu com vocês, não comigo”. Tornei a virar pra pegar água, passou de novo a mão na minha bunda. Pensei: ei, o negócio não está bom não. Bebi minha água e saí lá pra fora.

            A gente sente aquele arrepio, porque passa pela gente, a gente não vê e sente.

            (interferência do Francisco – ei, ei, conta aquela do Paulo).

            Ah, quando tava em reforma esse prédio aqui, dois anos atrás, eu tava trabalhando sozinho e como o prédio tava todo aberto o pessoal colocou mais gente aqui dentro. O prédio tava todo aberto, então tava eu, o João Eudes e um da firma que fazia a reforma. Um pra cada lado. De manhã se juntava e saía.

            Deixei o João Eudes aqui e falei: “fica aqui que eu vou dar uma olhada por ali”. Tudo bem. Saí. Quando venho de volta, ele tava parado lá no meio da praça com o olho arregalado assim (faz o gesto). Olhei e pensei: “esse cara tá assombrado”, vim e perguntei: “Que foi cara?” Ele respondeu: “Rapaz, eu não entro mais nesse prédio e só vou trabalhar hoje, de amanhã em diante eu não trabalho mais aqui. Nesse prédio de noite não entro mais, de noite não”. Eu pensei que ele tava brincando, perguntei o que foi. Ele disse: “rapaz, eu tava aqui quando vi tinha uma mulher de branco passeando aí”. Ainda perguntei: “Ela mexeu contigo? Ele disse: “não, ela tava no portão”. Eu ainda disse: “não liga não, isso é a coisa que mais tem aqui, vai ligar pra assombração”. Eu nunca vi a mulher de branco, o João Eudes viu.

            Agora, uma noite, era umas sete horas e minha mulher vinha trazer uma janta pra mim e eu tava sentado na recepção, a minha mulher vinha e quando passou por aquela porta (aponta para o lado) viu uma mulher bem alta, de cabelos longos, toda vestida de branco debruçada no balcão.

            Minha mulher é ciumenta, ela foi e sentou ali no banco no meio da praça, minha mulher é ciumenta, ela ficou ali sentada que de lá ela tinha a visão da porta do lado e da frente. Que ela viu a mulher debruçada quase em cima de mim, e ficou, ficou, ficou. Quando dou fé ela entra, entrou aqui e quando olhei pra ela assim, vi que ela vinha toda estranha. “Que essa mulher tem meu Deus?” - pensei. Ela chegou e falou: “tá aqui a sua janta” E perguntou: “tá sozinho?” Perguntei por que, já pensei que ela tinha visto alguma coisa. E ela disse: “não dá pra você fechar essa porta? Que eu quero que você me leve por dentro desse prédio todinho”.

            Fui. Comecei pelo corredor, as salas de dentro, ela viu que as portas ficam fechadas. Eu falei que tudo fica fechado que a gente não tem acesso, só ao corredor. Passei com ela por tudo, mostrei por aqui, por ali. Perguntei por que ela tava querendo ver e ela me contou que tava pela praça há mais de meia hora e tinha uma moça conversando comigo. Eu falei: “ah, você tá vendo fantasma, por isso é que você tá desse jeito, eu estou com mais de meia hora sentado aqui olhando pra porta e não vi sair ninguém e agora você chega aqui e fala isso. E não tinha ninguém aqui dentro não, só eu e Deus, ela foi, meio desconfiada.

            Eu falei pra ela que isso era a coisa que a gente mais via. Que escutava bater porta, rasgar papel, andar de tamanco de salto alto, poc, poc, poc... o barulho de pisada é de mulheres. Bem, eu só percebi de mulher.

            Todos os agentes de segurança que ficam de noite já viram alguma coisa. O barulho de porta é o que mais se ouve, eu mesmo já ouvi fazer isso aqui ó (faz o movimento de abrir e fechar a porta por três vezes para demonstrar o barulho que é feito), estou acostumado com essas coisas.Uma vez, eu tava de folga, foi o barulho, o outro companheiro saiu correndo, eu disse: “Não adianta correr não, se tiver que lhe ofender, te alcança em qualquer canto”. Fui lá, fechei a porta e ela quietou.

            Eu? Sou católico. Os lugares mais barulhentos são as varas do Júri e o corredor do meio e na subida da primeira escada. Quando eu estou desconfiado, eu desço lá no térreo. Quando a gente ouve pisada, a gente vai ver o que é, é obrigação da gente. Vai e não vê nada. Só o barulho do salto do tamanco, toc, toc.

            Às vezes, a gente fica quieto, tenta fechar os olhos pra descansar um pouco, eles vêm e cutucam a costela da gente.

 

FRANCISCO PEREIRA DA SILVA

 

Segurança noturno do prédio do Fórum Criminal. Entrevista realizada em 13 de novembro de 2001.

 

            Agora eu vou dizer uma coisa pra senhora, a gente que fica aqui à noite na portaria, de repente, quando você vê assim, vê aquele vulto passando (faz o gesto) e não dá pra identificar de quem é o vulto, não tem tempo.

            Não tem voz, são só vultos. Já perguntei: “se você quer alguma coisa, fale, não precisa se apresentar basta só falar que eu vou ouvir o seu pedido, se eu puder ajudar, rezar uma missa, fazer alguma coisa”, aí desaparece, não fala nada. E, olha, não tem um dia de plantão durante à noite que a gente não veja, é toda noite. Até de dia, quando fica silêncio.

            Não tem acontecido de gente viva vir fazer despachos nas portas não. Quando tem gente, alguém perto, até casal de namorados, a gente pede pra sair. Ninguém chega perto das portas.

            Estou aqui tem quatro anos. Sou católico e não tenho medo das assombrações, eu não acredito em assombração. Funcionários também já reclamaram. A Tatá já saiu correndo lá da biblioteca no andar do meio. Não sei se ela viu ou ouviu. A gente vê vulto. Não sei o que é. Acho que isso é funcionário, gente que já trabalhou aqui, alguém acusado indevidamente também.

            Nós nunca tivemos um tipo de acesso a eles, nunca conseguimos conversar com os que aparecem por aqui. A gente vê. Lá embaixo a gente quase não vai, a gente só passa por fora para olhar. A gente vê vulto, vulto a gente vê demais, barulho, porta batendo e a gente não tem acesso, elas ficam fechadas com a chave. Só ouve as portas batendo, PUM, PUM, PUM.

            Domingo retrasado, a gente veio trabalhar, tava chovendo, faltavam 20 minutos para as sete horas, o Seu Bezerra tava lá no meio da praça com um jeito estranho na chuva. Perguntei: “rapaz, que você tá fazendo?” Ele disse: “rapaz, eu estou aqui não é porque quero não, é porque não tá dando pra agüentar ficar lá dentro com tanta visagem”. Isso era de dia.

            Isso acontece toda hora, de dia, finais de semana, sempre.

            Sou uma pessoa que quando vou me deitar de noite rezo, peço e faço o que tem de fazer, a minha obrigação, agora que a gente vê, vê, só não sabe quem é. Agora se vier pra mim eu pergunto se quer alguma coisa, mas eu nunca vi, assim, ver mesmo, eu vejo sombras, vultos, escuto os barulhos, eles não falam, a gente só vê passar e não reconhece, é muito ligeiro.

            Um dia, começou a chover, as portas estavam todas fechadas e começou a bater portas, batendo portas. Todo mundo que trabalha ou que trabalhou aqui já viu alguma coisa. O Soldado Acácio já viu, ele correu daqui e disse que nunca mais ia trabalhar aqui, procura ele que ele vai contar, ele disse que nunca mais no mundo ia trabalhar aqui. Não tem um segurança daqui que não tenha visto ou ouvido, não tem nenhum. Eu não sei o motivo...

 

BIBLIOGRAFIA

 

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CANTANHEDE, Antonio. Achegas para a Cida de Porto Velho. Manaus, 1950.

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FOUCAUL, Michel. Vigiar e Punir. Vozes, São Paulo, 2001.

MENEZES, Nilza. Memória Judiciária. TJRO, Porto Velho, 1999.

MEIHY, José Carlos Sebe Bom. Manual de história oral. Edições Loyola, São Paulo, 1996.

STARLING, Heloisa Maria Murgel. Fantasmas da Cidade Moderna. Revista Margenes, Buenos Aires, 2002.