OS SENTIDOS


Para que o olhar, o paladar, a audição, o tato e o olfato se tornassem sentidos foi preciso que antes eles se destacassem do corpo em determinada sociedade, se separassem da alma, significando longe da presença de deus, ingressando no mundo e no corpo do mundo enquanto corpo animal, mergulhados na metafísica objetiva da indústria e da ciência, corporificados nas mercadorias: os sentidos só podem ser falados porque estão no corpo das mercadorias e foram transpostos para o corpo como se pertencessem a ele. Sem objetificação não há os sentidos.

E todas as artes ligadas “diretamente” aos sentidos só se tornaram ligadas a eles depois dessa corporificação dos atributos da alma, que esvaneceu-se em sombra, em desmaterialização: para que os sentidos passassem a ter existência foi preciso que a alma perdesse seus atributos e o corpo passasse a existir materializado e desmembrado, assim como a arte se separa desse deus e do espírito ocidental e passa a ser o resultado das reflexões de um dos sentidos que, sem esse sentidos em forma de pensar, não consegue mais se instituir: cada arte tornou-se a “reflexão artística” de um dos sentidos ou do conjunto de sentidos articulados como se fossem uma máquina de sentir.

A migração da voz ao olhar representa o deslocamento do eixo ocidental do espírito ao corpo, do comunitário ao individual, do interno ao externo, de deus ao homem, do corpo sagrado ao corpo profano, da cidade de deus à cidade dos homens: faz parte da história da instauração do corpo e da instauração da mercadoria enquanto verdadeiro corpo e espírito do mundo: a reflexão agora só é possível tendo como “objeto” o objeto e suas mediações, fazendo parte do campo dos sentidos.

A fotografia só foi possível depois que o olho se tornou independente e ela é a corporificação mecânica desse olho independente, desse olhar projetado e faminto, podendo por si mesmo significar e contar, sem precisar realmente mais de nada: ele é universo humano independente e autônomo. A pintura como a entendemos, em primeiro lugar, e a fotografia e o cinema depois, só são possíveis nesse mundo desmembrado onde um pedaço de nós passa a ser um pedaço meu para mim e para os outros, instaurando para si uma linguagem e uma existência próprias. Essa visão da morte e do tempo do capital que é a fotografia, santo sudário profano, é apontar constante a um tipo de fala que só tem uma matéria e um sentido.

O tato não está mais nas mãos, não está mais no corpo, não está na pele: esta fora, nas coisas: agora é atributo das coisas, logo, o tato pertence ao olhar, ao seu universo e aos seus signos: as mãos não possuem mais universos: seu mundo é depois do olhar: seu universo tornou-se pornográfico, deixando de ser íntimo, próximo, sentimental, fruto da conquista: o tato não existe mais, em seu lugar está o “objeto” do tato: o tato não toca mais: ele é depois do ver e por causa do ver: seu desejo é o mesmo desejo do olhar: talvez somente os cegos vivam ainda um tipo de tato que não mais persiste em nós em suas dimensões tradicionais.

O que cria o paladar é a diversidade. Nos mundos culinariamente monótonos das monoculturas ou dos sempre e mesmos “pratos fundamentais e do costume”, não existe o paladar nem haveria razão de existir. Somente com o múltiplo estimulo dado pela multidão infinita das mercadorias é que se estende o refinado e cosmopolita paladar de determinadas aristocracias ao “mundo do povo”. Mas não há somente uma “democratização do paladar” mas migração do paladar tradicional para ser um dos atributos palatáveis da própria mercadoria.

O ouvido deixa de ouvir o sagrado e somente ele: deixando de pertencer ao universo moral do audível, que é o indistingüível: deixa de pertencer e se torna autônomo, possibilitando, primeiro, a ouvir tudo inclusive o ruído, o desconexo, o amoral, o imoral, o estranho; segundo, a existência da música deslocada da comunidade, da classe, indo se instaurar na singularidade do ouvinte, do ouvido; terceiro, a ouvir a diversidade impondo o mesmo, como sempre.

Ao mesmo tempo torna-se um ouvido-surdo, possibilitando um ouvinte-surdo como sua corporificação vivencial. A música perde seu sentido e se torna “harmonia”, sendo percebida somente como “som”, “música”, criando um espaço de puro ridículo ao se dizer que se “gosta de música”, quando nada além desse som ou dessa “harmonia” é percebido.

O olfato continua no corpo mas num corpo antigo que ainda se cola ao novo corpo, verdadeiro fóssil vivo de um tempo indiferenciado onde o cheiro das coisas não cheirava sem sentido, sem limites, sem razões. As mercadorias não cheiram com tradição, significado, limites e razões, mas com novidade, planejamento, propaganda e imitação. O olfato fora do convívio vivo com as coisas, que é convívio com pessoas, pode apenas instaurar-se numa convivência de igualdade com as coisas, o que é negá-lo enquanto sentido e coisificá-lo. O Olfato só vivia quando não se propunha, quando não existia separado da experiência viva do corpo e do corpo das coisas que cheiram e cheiram porque as fazemos ter sentido enquanto aquilo que deve cheirar. No entanto com o olfato a coisificação ou objetificação em mercadoria ou corpo se problematiza. O olfato é arredio a transformação, apesar de perder seu referencial tradicional, isto é, ele fica sem modelo, sem experiência, sem devaneio: o olfato é o único sentido que definha e morre, vivendo somente numa dicotomia entre ficção e realidade.

Nossa ânsia pela conclusão das coisas, para que o principal chegue logo (coisa que os grandes romancistas sabem protelar até o desespero), nossa pressa em tudo, visão de mundo e percepção pornográficas por excelência, anulam o gozo inteiro dos caminhos da espera, da interna vibração conjunta de todos os sentidos (quer definição melhor para alma?), fazendo valer somente a gula dos olhos, a avidez infantil do tato e do paladar, a voracidade do ouvir da fofoqueira, a loucura sutil do cheirar de Grenouille. A rapidez e a pressa do consumir e consumir sem cessar não é o império dos sentidos mas seu fracionamento, abastardamento e substituição: em lugar do gozo dos sentidos, que é deleite vivo para a memória e a experiência, apenas uma fome exacerbada de cada sentido em separado querendo devorar sua parte, consumir rapidamente aquilo que lhe pertence ou deve pertencer. A ânsia dos sentidos (tipicamente infantil e adolescente, porque a ocidentalidade antes de ser necrófila é essencialmente infantil) é o sintoma da sua individualização, fragmentação e destacamento do corpo e da alma. As mercadorias instauram a reflexão ansiosa e gulosa de cada sentido. Dando-lhe autonomia e desejos próprios, o mundo do capital cria um corpo e determinado tipo de alma próprios ao consumo e só a ele. Até mesmo a arte se tornou progressivamente a arte dos sentidos e para os sentidos, por isso devendo também ser consumida.

Enfim, para que chegássemos a idéia de que “cada sociedade educa os sentidos à sua imagem e semelhança”, principalmente porque não existem os sentidos, foi necessário que antes criássemos e entendêssemos um tipo de ser social como máquina e ao seu mundo e ao seu deus como os outros desse ser, exterioridades com vida e histórias próprias. Os sentidos só passam a existir quando um corpo destacado do mundo, coisificado, tornasse independente e pode se vender e se propor enquanto individualidade e interioridade. Nesse momento o que era do universo do íntegro passa a existir como coisa e como coisa separada, tendo sentido e lógica apenas enquanto coisa separada.