Ulisses (u-deis, ninguém em grego) tornou-se para nós, herdeiros de aspectos da escola de Frankfurt (Adorno; Horkheimer, 1985: 53, 80) e de certos comentários eruditos (Détienne, 1992; Blanchot, 1984), uma das primeiras caracterizações de um tipo de homem e de uma maneira de apresentação e exercício da Razão ocidental, tanto no Canto sobre as Sereias quanto nos Cantos sobre Polifemo e Circe (Odisséia, Canto IX - 105/566; Canto XII - 37/200; Canto X - 210/574).
Amarrado ao mastro Ulisses priva-se de aspectos fundamentais do canto das Sereias: do perigo do canto, das contradições vida-morte, realidade-interioridade; afastando-se de uma certa feminilidade que atrai e converte; priva todos os marinheiros de ouvirem e enfrentarem por si mesmos tanto o perigo quanto a beleza do canto, tapados à aventura, à formas do outro que seriam fundamentais enquanto complemento daquilo que nos atravessa o caminho da vida; apenas o senhor possui o direito a ouvir, mesmo amarrado, o canto.
Sua maneira e seu modo de viver, sua posição tanto em sua comunidade quanto enquanto certo tipo de narrador, exigiu uma audição amarrada, contida, que não misturasse paixões, sentimentos, audição pública, não cruzando corpos/poderes/líquidos. Tapar os ouvidos indicará a legitimação deste tipo de audição. Inaugura-se uma Razão contida, fruição castrada e castradora, sem poderem mais chegar ao canto feminino, chegar às contradições de um corpo e de uma cabeça que se separam nitidamente em cabeça masculina e ventre feminino; a Razão parindo certezas e idéias (maiêutica) e o corpo feminino parindo novos homens, a casa e o mundo (Vernant, 1990; Devereux, 1990; Gagnebin, 1997). A Razão priva-se assim, desde seu nascimento, de uma rede viva de contradições, apresentando-se como controle, poder, indiferença diante do canto que os tornaria diferentes. O encontro de Ulisses com as Sereias torna-se a alegoria inicial de uma lógica que começa a se instaurar. As Sereias, aqui, ainda são seres reais ou seres possíveis, enquanto na modernidade serão somente Sereias de porcelana, objetos de sedução, o perverso canto das coisas.
Com Polifemo, Ulisses destrói o ser natural, o inconsciente, as forças não civilizadas, o que não faz parte da sua ótica: Polifemo está fora da tridimensionalidade, não é humano, não é grego, sua visão é unifocal, sua fome não é civilizada. Um tipo de natureza (do corpo, do estômago, da interioridade, do primitivo, do campo) é destruída e em seu lugar instaura-se uma outra Natureza (da razão, da língua, da palavra, do poder, da astúcia, do civilizado, da cidade). Dela estão fora os outros instaurando-se somente o outro do mesmo; apenas uma distância sem pontes comandará suas relações; os sentidos, amarrados, verão, de longe, o espetáculo construído pelo poder da lógica e pela lógica do poder: os marinheiros estarão surdos. Destituída de sentido uma natureza simbólica", criada por um homem natural, instaura-se uma forma de Natureza objeto, de homem civilizado. Através da poíésis homérica cria-se aquilo que será um dos eixos da racionalidade: sua falocracia.
A Razão Ocidental é fálica; sua lógica é a do phallus (não de um phallus universal mas de um phallus estritamente ocidental e, principalmente, cristão), assim como seu fundamento é o domínio, a produção masculina; qualquer lógica simbólica (o áspero calando o sedoso, o aquático) é exterminada em proveito de uma Razão permanente, phallus inescapável, ereção diuturna, sem ambigüidade em seu poder, em sua capacidade; seu destino é em tudo querer penetrar, só ela podendo penetrar, só ela tendo o direito de penetrar; signo perfeito, signo real da realidade, mais real que o real; signo pornográfico por ser ilusão de realidade. O excesso de realidade da Razão ordena e estrutura uma realidade como pulsão ideológica de si mesma, fluxo vivo da estrutura social reificada. No fundo o que ela expõe é ela mesma enquanto justifica os fundamentos que a tornam legitima, num jogo perverso onde o mundo do domínio e da exploração, seu real fundamento, escapa incólume, assim como ela mesma.
O grotesco da Razão é sua sobre-significação, sua hiperrealidade, exagerando seu significado e liberdade ao mesmo tempo em que, para poder existir, sub-significa ou anula aquilo que para ela é seu oposto.
Os fantasmas da Razão provêm dela mesma. O irracionalismo não é o oposto da Razão, mas sua conseqüência natural. A crise, os descaminhos, os labirintos inescapáveis da Razão são produtos vivos dela própria. Sua maneira de ser decorre da forma como foi se estruturando no mundo ocidental; para apresentar-se como Razão foi preciso primeiro fundar-se como desligada do mundo, do trabalho, das classes que a legitimam e criam, desligar-se de uma lógica da produção para apresentar-se como lógica pura, racionalidade humana; separar-se de um corpo, de uma cabeça, de uma voz e de uma vida que a compromete ainda hoje; uma natureza torna-se exterioridade geometrizável, livre do humano e, ao mesmo tempo, presa do número, compreensível somente por essa mesma Razão, subjetividade diante de si mesma: a Natureza, para a Razão, é a própria Razão ou, no mínimo, racional ou racionalizável: Narciso que não sabe que é ele mesmo que está no espelho.
A Razão constituiu-se como instrumento-espelho da ocidentalidade. Manter a Razão com sua universalidade é querer preservar seus mais obscuros fundamentos em prol daquilo que é visível e belo, legítimo e justo, verdadeiro e lógico, elementos da Razão que na verdade pertencem à imagem que de si mesmos fazem as classes que a fundamentam.
Um remendo na Razão apenas a tornaria ou Razão Frankenstein ou irracionalismo, que é a face escondida da própria Razão. Fundar uma certa imaginação simbólica, a negatividade crítica tanto de uma Hermenêutica do Presente quanto de uma História Oral como campos unificados e uma nova atividade política, destruiria a Razão, fazendo-a mostrar-se como mito reificado, aspecto vivo das estruturas ocidentais de poder.
A Razão, signo axial perfeito, dicotomiza tudo. Ela é o centro, criando a periferia deformada e débil; é o ser, estudando o aparecer como erro e ilusão; é a idéia, núcleo lógico e humano, que pesquisa a Matéria, existência em-si, existente eterno além de tudo, cosmo-em-si; o conteúdo e a essência de uma forma que é a manifestação superficial dessa forma.
A Razão estabelece uma classificação paranóica de tudo, nada escapando ao seu zelo de colecionador sádico. Para ela tudo entra numa hierárquica lógica matemática. Para seu mundo ser perfeito a Razão pôs todos os poderes-de-valor (Religião/Moral/Filosofia) dando-lhe suporte e segurança.
A Razão confina: com uma História reificadora do passado, restando somente um presente esvaziado, resumindo-se ao trabalho e às ilusões do trabalho; preso num espaço e num tempo (trabalho/presente) qualquer real transcendência torna-se metafísica; o ser funda-se, assim, num estar-no-mundo, que é exatamente o reverso-perverso da condição humana, que é um estar-além-do-mundo, criando seu-mundo como projeção da práxis, existência significante que aponta para um além, tanto de um simples tempo presente como de um espaço que não é o de trabalho: para tudo isso a Razão simplesmente pretende esmagar tudo que não seja ela mesma.