MEMÓRIA


O “trabalho” da memória é praticamente o mesmo que é feito na criação de um texto ficcional. Ela não é um arquivo: sua forma de “existência”, a imagem que talvez a “exprima”, não é estrutural, sistêmica ou orgânica, mas poética, virtualidade criativa e metamórfica, ritmo e movimento, que nunca é nem aquilo que “diz” nem o metafísico e inapreensivo “aquilo que viveu”, mas abertura em processo, o sentido da ficcionalidade ontológica do ser social na órbita da singularidade, puro caleidoscópio atravessado pelas múltiplas vivências do “viver humano”; "desdobradora” por excelência e vitalizadora criativa do presente, montando e desmontando os sentidos e os significados de cada um através das conversas, dos relatos, das crenças e do mundo enquanto resultado de um viver social garantindo “identidade” e limite. É sempre mais e sempre menos do que o metafísico vivido, é sempre mais e sempre menos que o “autor”, encontrando coerência muito mais na fantasia que numa possível realidade orgânica que a marcasse com sua existência.

Segundo Jerome Bruner e Susan Weisser,


“... a forma de uma vida é função tanto das convenções de gênero e estilo a que se submete a narração dessa vida quanto, daquilo que “aconteceu” no seu decorrer. E os pontos decisivos de uma vida não são provocados por fatos, mas por revisões na história que se usa para falar da própria vida e de si mesmo: as mais drásticas dessas revisões são as mudanças de gênero provindas de dentro do ser. (...) as “vidas” são textos: textos sujeitos à revisão, exegese, reinterpretação e assim por diante. Ou seja, as vidas narradas são vistas pelos que as narram como textos passíveis de interpretação alternativa. (...) um relato instalado na memória, de tal maneira que seja capaz de gerar versões mais longas ou mais curtas de si mesmo, não exclui sua condição como texto aberto e interpretações alternativas” (1995: 142).


Dobramos e desdobramos nosso passado nas dimensões do presente com palavras e maneiras de ordenar esses textos interiores como numa espécie de “texto de ficção”: texto onde integram-se indistintamente em sua armação virtual e dialética, a vivência, a imaginação, o desejo, as “estratégias narrativas”; juntamente com dinâmicos e estáticos cruzamentos seletivos sejam de palavras, de temas, de imagens, idéias, sonhos, significados; onde partes inteiras da vida, do permitido e do proibido, do vergonhoso e do indizível, do aceitável, do honroso e do desonroso, do falso e do verdadeiro, do significante e do insignificante, se interpenetram numa “única realidade”, um “único texto” possível de ser dito “em condições normais”: texto vivo e estereotipado, magma e signo, objeto e sujeito, tradição e singularidade, fundamento e fim de um determinado vivido que jamais poderá ser novamente “visto exatamente como foi”, o que seria naturalizar o “vivido e sua memória”, naturalizar o “trabalho da memória”, o texto, deixando de vê-los como práxis desdobrando-se em palavras e consciência possível. Principalmente porque a “memória” não acontece num espaço físico, mas numa dimensão metafórica do fora que vai para dentro e que, ao se desdobrar, aparece como um encontro consigo mesmo, atualizando as dimensões do presente, da consciência e do corpo. Daí porque o referente em História Oral não é a “memória”, o “real”, o “social”, o “histórico” mas esse momento da interioridade textualizada, esse texto onde nasce, se movimenta e aparece o sujeito e seu mundo.

A interioridade é tão somente aquilo que esta dentro, no interior, dentro de nós, aquilo que somos nós para nós mesmos. Não é uma fôrma, uma potência, um arquétipo, um modelo. No entanto, o dentro e o fora dependem de cada sociedade, de como entendem e vivem esse dentro e esse fora ou sua inexistência.

A interioridade ao não ser física ou biologicamente determinada mas virtualidade viva, sociabilidade singularizada, possibilidade cultural, não tem uma estrutura, mas abertura a todas as possibilidades, a todas as leituras, todas as formas e todas as fôrmas de interioridades ou não interioridades possíveis, que possam ser criadas a partir de comunidades vivas que “introjetam” suas maneiras de ser e de deve-ser e se tornam o suporte dessa mesma interioridade, ou seu ponto de partida quando podem apreender seu fundamento.

Não existe a consciência enquanto universalidade ou sinônimo de interioridade genérica, mas somente interioridades que se referem à determinada comunidade-suporte, a determinado imaginário vivo, determinada rede viva de ficcionalidades. A pretensa forma ou estrutura da consciência é comunidade ocidental introjetada: somente a nossa mitologia criou o que podemos chamar de consciência enquanto modelo com características específicas que se dizem universais.

Aquilo que chamamos interioridade não é um ser ou um nada, muito menos uma estrutura ou um sistema, uma coisa ou um modelo. A consciência é a específica e tradicional forma de interioridade ocidental, tipicamente cristã-burguesa, com características gerais e específicas dependendo historicamente da comunidade que a gera e a suporta, tornando-se seu limite e eixo externos, seu feixe principal de significados e possibilidade de compreensão; enquanto a memória é o desdobramento perspectivado “do que aconteceu com essa interioridade e seu corpo”: é processo narrativo, texto em movimento. Ao se desdobrar a interioridade encontra-se e encontra realidades vividas que marcam sua identidade, sua extensão, sua existência, sua forma de ser e significar. Sem esse desdobramento não há tempo, consciência ou memória.


“A função última da autobiografia é a autolocalização, o resultado de um ato de navegação que fixa a posição em um sentido mais virtual que real. Pela autobiografia, situamo-nos no mundo simbólico da cultura. Por meio dela, identificamo-nos com uma família, uma comunidade e, indiretamente, com uma cultura mais ampla” (Bruner; Weisser, 1996: 145).


A memória é um desdobramento contínuo e singular que garante vários tipos de identidade. Ao mesmo tempo, sua forma de se expressar é como texto e seu “trabalho interno” para chegar a esse texto é o mesmo de um tipo de criação literária.

A memória contém uma


“... função esquematizadora extremamente poderosa, capaz não só de selecionar e organizar vastas quantidades de material armazenado em padrões de significado, mas também de (...) “girar em torno” de esquemas já formados e reorganizá-los segundo as intenções e ‘atitudes’” (1996: 147).


Dessa maneira


“... qualquer um pode engendrar autobiografias de sua própria vida - ou seja, pode incluir diferentes materiais, organizá-los segundo diferentes temas (dentro de certos limites), atribuir-lhes diferentes aspectos, relatá-los a diferentes audiências e assim por diante” (...).[A] “... autodescrição torna-se uma forma importante não apenas de relatar (de maneira seletiva) o passado, mas também de se libertar de modos anteriormente estabelecidos de responder e organizar respostas ao futuro” (1996: 148-149).


A memória como campo do presente não quer dizer “atualismo”, mas que o presente enquanto dobra virtual tem na memória enquanto texto sobre texto, texto em movimento (interioridade em movimento, ficcionalidade viva) um dos elementos fundamentais de sua existência. É a ficcionalidade da memória que em grande parte suporta as dimensões vivas da ficcionalidade viva do presente. Sem essa ficcionalidade o presente se tornaria tempo morto do relógio, sem profundidade, sem horizontes, sem dialeticidade e sem historicidade, numa existência naturalizada fora do vivido e da singularidade. A memória (as memórias) é também garantia da constante modificação e permanência da dialogicidade e da polifonia, perspectivações das linguagens, nos sentidos da fala e da escrita, do corpo, das relações interpessoais e na constante criação da identidade narrativa. Sem a existência do passado, é a memória um dos suportes das múltiplas formas de existência do presente, permitindo a continuação que reproduz as condições de vida, o equilíbrio e as referências grupais. Com isso, entendemos a memória não somente como criação pessoal, mas como construção polifônica da sociabilidade, criação coletiva que, por ser simbólica, cria as pontes que unificam e aproximam, num mesmo espaço vivido, as múltiplas dimensões da vida, as múltiplas experiências da experiência.