A LEITURA


O ato de ler é, antes de tudo, ação destrutiva. É precisamente por essa característica que existe a possibilidade da leitura: é o resultado do choque de singularidades, de modos de ver e sentir. A resultante desse choque é sempre contra-texto, contra-ver, contra-sentir, um contra-criar. Concordar com o texto é traí-lo e é, antes de tudo, trair-se. A verdadeira leitura jamais é “religiosa” ou “mercantil”.

Quem procura a leitura de um texto não pode esquecer que ele é procurado por algo que nos falta: nos falta o diálogo que revele nossa discordância, confirme nossa voz, sustente o não que ainda desconfiamos frágil. Mas esse procurar é encontrar o outro e encontrar a alteridade é necessariamente confirmar eu mesmo. Mas não todo eu: a leitura e o outro enquanto texto são sempre insuficientes: discordo do outro naquilo que já era intuição viva de mim mesmo, naquele ponto que era quase nada no outro e para mim é o esforço de criar eu mesmo apesar do outro e dos poderes.

Ler é discordar do poder e da autoridade. O escrito carrega sempre com ele uma autoridade que tem como função invisível desacreditar aquilo que sou. Na escrita, no dizer do outro, se reproduzem todas as hierarquias sociais. Só diz quem pode dizer; se diz, devo então escutar; para escutar não devo então me ouvir: ouvir através da leitura é não se escutar. A leitura torna-se suspensão de ser, covardia de se ouvir, medo de dizer.

Ler, deixando o outro falar enquanto calamos e porque calamos, é respeitar sua existência não enquanto homem, mas enquanto texto: deixamos de existir não por alguém mas por algo. Como certa existência do texto é eterno monólogo, calar-se diante dele, ao lado dele ou dentro dele, que é o ato de ler, é estarmos abdicando da verdadeira essência do ser homem: e a leitura cessa, esgotada em si mesma, transformada em palavras de ordem e informação vazia, traição viva da possível voz do outro, do próprio outro enquanto homem e de nós mesmos na totalidade de ser.

Ler é confirmar o humano em nós através do diálogo: só negando o outro podemos confirmá-lo e nos confirmar, transformar a não-leitura em leitura: aquilo que antes é só possibilidade torna-se, através de mim e por mim, realidade.

A leitura transformada em algo-a-nos-ser-dito, algo que nos ensina, gera uma dicotomia coisificante e destrutiva. Ler não é reflexo do estudar, que é um se render, um se entregar e um aceitar: a leitura não forma, não especializa, não ensina: a leitura é ação criadora do leitor somente na medida em que for negada: ele, o leitor, cria o outro porque está se criando e só porque está se criando é que faz o texto, a voz do outro, existir.

A leitura é luta onde se o vencedor não formos nós abre-se o caminho para o saber enquanto erudição (que é somente subproduto da memória), matando-se o caminho da criação: criar é ato continuo de negação e destruição. A leitura é diálogo negativo, diálogo contra, diálogo de reafirmação e construção da interioridade e de certa interioridade. A cada momento da leitura precisamos estar atentos para essas múltiplas vozes em luta, múltipla a nossa voz que é sempre um mundo de mundos e múltipla as vozes do texto, onde um saber-já-dito tenta novamente se dizer. No entanto passar por ele é fundamental: a leitura é sempre um dizer antigo camuflado de um dizer-agora. Desdizê-lo é ler: há leitura somente nesse negar.

A leitura é diálogo de discordância. Sem discordância não há entendimento. Mas na leitura não há verdadeiro e possível entendimento: ou saio ganhando a minha perda e minha insatisfação ou não há leitura: se não destruo o outro, se não o devoro (não no sentido oswaldiano, que é ainda aceitar o jogo, aceitando o outro como o servo aceita, escondido e sem saber, o senhor), não existem nem eu nem a leitura.

Mas a leitura é também diálogo amoroso: se não me considero, de saída e no mínimo, igual ou superior sou devorado como um louva-deus macho pela fêmea-leitura, que esconde, na verdade, um poder: o poder do senhor: a lógica da leitura reproduz as lógicas em ação no mundo: a inocência ou a culpa da leitura esconde os poderes que escondem e traem: a singularidade se faz contra a leitura: que é o mesmo que ser contra o mundo.

A razão da leitura é a luta para ser, para me tornar e para me desfazer num além do nome e das determinações, como se isso fosse possível. A construção da singularidade, daquilo que entendemos na ocidentalidade como singularidade e como interioridade, rege a leitura, porque não há singularidade sem o combate diuturno contra os outros: a leitura faz parte desse combate: as feras do livro contra minhas feras, as lógicas do mundo contra minhas raivas. Quanto mais autenticidade e coragem nessa luta, nessa construção destrutiva, mais autêntica a leitura. Ler é dizer-se enquanto nego e me nego: enquanto me faço e só porque me faço.

Ler é criar consciência do projeto que somos nós: criar o outro, a voz do outro, é aprender a ouvir a nossa voz, a sabê-la existente: sentir seu contorno, seu calor, as nuances que a faz ser o que não é, ser o que deveria ser, ser aquilo que sonhou: compreender suas vozes e murmúrios como se tudo fosse uma grande e mesma voz: saber os sentidos e significados que é a identidade mais intima de nós mesmos. Sem essa voz primordial não há leitura, não há o outro, não há o mundo: nada que valha a pena.

Sem a mais íntima coragem de criar não há leitura: há, na verdade, pantomima: o outro deixou-nos uma sombra, armadilhas, voz cristalizada e sem calor, sem realmente ninguém para pronunciá-la: a leitura é labirinto onde podemos nos perder ou nos ouvir: os lábios da leitura são os nossos, a carne imaginária é a nossa: e os nossos ossos e olhos, e o nosso sexo e nosso irremediável cansaço.

A verdadeira leitura é a ponte entre dois criadores, entre dois mundos imaginários: toda leitura é simbólica: é o campo de batalha entre duas vidas: uma definida, infinita em possibilidades por sua informe existência, e a outra em indefinições, caos profano de pura sacralidade, definição e agonia, abertura vital para ser. Mas o simbólico da leitura não está nas palavras murmuradas ou nas palavras de tinta: está na ação construtiva do sujeito enquanto cria e recria e descria o texto: o simbólico é o homem agindo como homem diante daquilo que o nega: toda a simbologia da leitura sai da ação negativa da criação.

A nossa criação depois da leitura continua com todas as precariedades da vida, com todas as fraquezas e covardias: nossa vida é tentar manter as conquistas da criação e criar infinitamente até a inadiável destruição; a destruição do outro, provocada por nossa leitura, se desfaz e potencializa-se em outras futuras leituras: ler é anteceder outras destruições: como a virgindade das deusas, sempre se renova o texto para infinitas destruições: sem a nossa leitura, sem a nossa vida para reinterpretá-lo, ele simplesmente não existe, ou no melhor dos casos, fica em suspensão, à espera, mas uma espera que é um não-existir.

É a nossa autenticidade, pois a nossa atual interioridade é única, que mantém o texto vivo: abdicar de nós mesmos é matar o texto, matar perspectivas que somente a nossa vida poderia desvendar, doar, extrair e criar do texto: sem nós, sem o alento vital que somos nós, ele é pura pobreza, delimitação temporal: estática textual refletindo nossa ausência, pobreza ou covardia: somente um metafísico não-texto.

A função da leitura é descentrar e desmobilizar a função: não há uma função da leitura: lemos para superar a quem lemos e nos superar: lemos para desdizer e contradizer e principalmente para nos contradizer: lemos porque sabemos ser mais que aquele que lemos: nossa interioridade ri da coagulada interioridade em forma definitiva: podemos mais, queremos ser-mais: até nos tornarmos também texto: lemos para nos tornar texto: a meta da leitura é morrer em fluxo de texto: não suportamos a simples existência da interioridade: precisamos da fixidez das palavras no papel. A leitura é a antesala da escrita, que é o inverso, o reverso, o contraverso da leitura: a leitura é prazer de ser e de se tornar: escrever é a dor de haver se tornado, o desprazer de haver dito: se tornado palavra de ordem, informação, poder.

Mas então a leitura não pode ser prazer: não há prazer em lutar-para-ser ou para tornar suportável a solidão e a morte: é um destruir irreparável, um não ouvir, não respeitar, não parar e se consumir. A criação da leitura reproduz a agonia de ser incompleto: ler é tentar destruir aquilo que existe porque normalmente é “monstruoso” e construir aquilo que nos falta: mas a leitura é incompleta também: incompletos nós mesmos, a leitura, o texto: resta-nos criar o texto que nos diga, que nos imponha, que grite aquilo que falta nos outros textos: nós mesmos: jamais estamos no texto que é lido: por isso lemos, por isso escrevemos: mordemos nossos pés e nos devoramos até a nuca, sonhando o vazio: a leitura é esse morder tautológico, esse construir no construído, essa subjetividade na subjetividade objetiva.

Abre-se então a leitura para um além-do-papel: é constituição do ser enquanto criação destrutiva. Só podemos ler o mundo através da construção-do-ser que seja uma destruição daquilo que nos consome. Sem essa criação destrutiva, sem esse ir-se construindo, não há entendimento, mas derrota, uma realidade e um texto para sempre constituídos.