FICÇÃO E REALIDADE


A ficcionalidade do “texto das Ciências Humanas” não ocorre apenas depois dos “textos orais” de uma História Oral, havendo antes um “texto objetivo” e depois um “texto ficcional”: a ficcionalidade de Michelet ou de Marx, de Gilberto Freyre ou Hobsbawm, de Anderson ou Toynbee, de Gorender ou de Hélio Silva é a mesma ficcionalidade de Bosi, Burgos, Viezzer, Meihy, Portelli ou de qualquer texto “sobre o homem”: o grau de ficcionalidade é sempre o mesmo; uma das coisas que pode mudar é a politicidade, consciência seja de classe, seja textual, nunca a essência ficcional, que tem suas raízes bem além do ficcional do texto ou da simples ficção como gênero literário.

Ao mesmo tempo, a ficcionalidade de todos os textos das Ciências Humanas é o mesmo dos áridos e funcionais textos das Ciências Naturais: sua validade e legitimidade acontece somente dentro de parâmetros culturais, historicizantes, teóricos, funcionais e estilísticos bem delimitados; não há um texto que fale sobre a Realidade, sendo “tão real quanto o real”, como se o real fosse uma concretude metafísica realmente existente além de uma virtualidade social determinada, virtualidade antes de tudo narrativa e textual, que a instaura e dá sentido, definitiva em sua verdade, mas somente textos que são perspectivas ficcionais de determinado conhecimento, determinada opinião, também ficcionais: subjetividades que falam e se organizam a partir dos limites do perceptível e do aceitável da sua “comunidade”: devemos não confundir (como faz o livro didático de História), o vivido (onde homens vivenciam coisas e situações a partir das suas vidas e perspectivas, situações que se esfumaçam ao serem vividas) com o fato ou acontecimento (que é sempre uma construção ficcional daquele vivido, sempre perspectiva, sempre intertextualidade, sempre abertura, sempre menos e sempre mais, sempre narração e ficcionalidade, sempre texto).

A Realidade, a nossa realidade forjada no e pelo campo vivo do capital, como se houvesse um olho de deus que dissesse tudo num resumo textual, é tão ficcional quanto qualquer outro tipo de realidade considerada assim por outra “sociedade humana”. Falar-do-real é sempre um falar-sobre, com todas as implicações disso, com todas as insuficiências e grandezas disso, nunca um falar-o-real, como se toda e qualquer objetividade não fosse uma determinação, uma escolha e uma vivência cultural do que se considera objeto e objetivo.

A ficcionalidade do texto de certa História Oral é sua garantia de rigor (o rigor ético-filosófico da História Oral e não um rigor científico), sua possibilidade de ter compreendido e apreendido o sentido do real enquanto ficcionalidade coletiva, enquanto rede de significados vivenciados, existindo somente nos quadros temporais de determinada sociedade e seus limites e deslimites.

Todos os “textos sociais” são “objetos-subjetivos”, delimitações e valorizações a partir de perspectivas teórico-metodológicas específicas e não “textos” em si, ficcionais na sua mais íntima essência: é exatamente essa ficcionalidade, essa subjetividade à disposição, que possibilita ao “objeto” a dimensão de “símbolo”, abre-o à múltiplos relacionamentos e interpretações: a multi-significação dos “textos sociais” é uma abertura da ficcionalidade, não por pertencer a uma realidade ou por ser real, que é, no caso, secundário. A abertura das coisas humanas não provém das sua visual realidade mas da sua virtual ficcionalidade social e histórica.

Mas o real não é menos real por ser ficcional: é exatamente a ficcionalidade que garante identidade e poder a essas “relações de produção”: não há trabalho, não há sociedade sem que haja uma “crença” em determinada estrutura culturalmente ficcional que mantém, cria e faz circular as dinâmicas postas em ação: o real e o imaginário não são coisas opostas, mas complementos indispensáveis para a forma de existência da práxis social. O ser social (no caso em questão as sociedades ocidentais) só existe através e no centro de um imaginário, imaginário que para ele é o real e que não deixa de ser real ao ser vivido intensamente conforme suas estruturas e possibilidades, segundo uma determinada “inteligência” e sentidos historicamente “educados” nele e para ele.

A ficcionalidade não reduz o texto ou a realidade a ser uma mentira ou uma ilusão. Deformação é a “realidade” e os “nossos textos” dizerem-se sem o saber que são objetivos-além-do-mundo ou que seu rigor garante-lhe uma realidade-verdade: enquanto um texto ficcional encontra seu devido rigor e consciência, voltado ao coletivo e às possibilidades reais de mudança e consciência, aqueles textos que são “cientificamente objetivos” desconhecem que são apenas perspectivas ideológicas, afundados num inconsciente redemoinho etnocêntrico, que, sempre que pensaram ter conquistado o mundo somente o haviam perdido por covardia, capachismo e falta de talento.

Tomemos Hayden White (1994) como exemplo (o nosso Ciro Flamarion Cardoso seria outro exemplo de como tornar a História o estudo científico de uma coisa, de um objeto) de um tipo de História que ainda não conseguiu, como todas as demais “Ciências Humanas”, superar os mais elementares sub-paradigmas da ocidentalidade. Para ele (1994: 97-116) existem eventos, acontecimentos-fatos (o que é normal em praticamente em todos os tipos de historiadores e no nosso atual senso comum), e o historiador pode ficcionalizá-los de modos diferentes, sem que haja uma mudança no acontecido, no fato; ele chega mesmo a considerar aquilo que entendemos como texto histórico como “... ficções verbais... ” (1994: 98). No entanto há nele uma crença sobre a realidade independente dos envolvidos e da subjetividade envolvida em tudo que é humano: sua História (Ciência, Arte, Disciplina) pode ser verbal, mas sua história (sociedade, realidade, mundo) tem que ser Real, mas não todo e qualquer real e sim aquele que para nós se parece com o que entendemos como real.

Ele não parece perceber o quanto há de escolha, de delimitação, de mentalidade e crença, de vivência cultural, de ficção, perspectiva e leitura, de construção cultural da ocidentalidade na criação dos próprios conceitos de real e de história; sem também perceber que o vivido a que os acontecimentos se remetem não pode ter sido de uma única maneira em-si, pois há homens envolvidos e homens como substância, há diferentes maneiras de viver-o-vivido e diferentes maneiras de contar-o-vivido, sem que haja um único vivido-modelo, pairando num céu metafísico, meta-histórico, além e antes dos “textos”, tendo acontecido em si mesmo, existindo ainda como um holograma dentro do olho de algum deus de plantão: e essa é a sensação de todo historiador ou mesmo do atual senso comum ocidental: a história existe, ou existiu, independente de qualquer texto, de qualquer interpretação, existiu “assim como está nos livros”, sendo essa imagem a verdadeira garantia dos documentos, dos fatos, das interpretações.

Sem retomar os fios que estabelecem nossa ficção maior enquanto ocidentalidade, apreendendo os sentidos e os intrincados e dialéticos significados da história e da História, não poderemos entender sua substância imaginária, mítica, ficcional, modo de ver e de sentir ocidentais, sem naturalizações que as mistifiquem numa universalização doentia e capenga, sendo cada vez mais irreal e totalitária, tornando-se inútil no fundamento e na função.

Sem compreendermos as nossas “especificações culturais” (exatamente por termos considerado o etnocentrismo apenas como elemento pré-conceituoso e não como formatação social das específicas maneiras de ser e de viver dentro de cada horizonte cultural), nossos horizontes e territórios de subjetividade, jamais poderemos estabelecer um tipo de reflexão que se volte para o coletivo e possa sonhar a superação tanto das ilusões-concretas da ocidentalidade quanto lutar mais coerentemente por uma mudança social radical, além dos campos de força das lógicas do capital.