A lenta transformação de tudo em "objeto da ciência" esconde seu fundamento: a transformação de tudo em objeto. Sem o histórico processo de objetificação, sem objetificar, o pensamento científico fica inoperante, principalmente porque suas razões são funcionais. Sem essa funcionalidade a Ciência não existe. Sua função é ter função, isto é, gerar coisas ou teorias que possibilitem futuras utilizações. Seu pensamento é "industrial". As operações lógicas que lhe cabem são somente aquelas que permitem a construção, a utilização social de determinado conhecimento para criar bases econômicas e de poder. Sua eficácia provém exatamente da objetificação e conseqüente desumanização invisível.
Existe um pressuposto não explícito na Ciência: a da existência autônoma de uma natureza, independente das práxis sociais e instaurando-se como a natureza. O mundo seria igual a como nós o "descobrimos". Daí a objetividade, o método, as leis. A certeza científica provém da estranha certeza de um mundo mutável mas absoluto em sua imutabilidade.
A Ciência ainda mantém, em sua crença sobre a existência de uma Natureza, de um real organizado e sem as perspectivas sócio-históricas fundantes, a primordial maneira de entender seu objeto de estudo: o livro da natureza (o livro das obras de deus) sendo lido pela experiência, pelas idéias corretas, longe de toda subjetividade (a Ciência é a expressão viva de uma mentalidade luterana, de uma leitura literal do mundo, ou melhor, de uma leitura de um mundo projetado como único mundo, separando leitura e mundo). Mesmo tendo se afastado, ou tornado dendrítica sua metafísica de fundamento, dificultando sua localização e função na atual Ciência virtual, uma parte visível dessa metafísica permaneceu: não há Ciência sem um suporte-não-dito: deus, o livro da natureza e a possibilidade de uma leitura literal ou pragmática dessa Natureza: vemos apenas as obras de deus, a ordem divina, mas não precisamos mais desse deus: no entanto para haver coerência científica é preciso que lá permaneça esse imenso cadáver invisível possibilitando coerência, corpo e entendimento.
Isso porque a Ciência não se pode compreender como mais uma visão do mundo. Nem pode aceitar que criamos, compreendemos e apreendemos a "natureza" apenas através da atividade viva e das "idéias" que formamos sobre ela e sobre nós mesmos através de mediações sociais criativas, sendo, na verdade, práxis, projeção viva num também histórico indiferente existir. As naturezas são sempre visões históricas, exterioridades de uma virtualidade viva.
A Ciência é a mais pura expressão, ao nível do conhecimento, da Razão do capital. Sua função é estritamente instrumental, sua lógica é castradora, sua maneira de desenvolvimento é fragmentária: do objeto ao objeto.
Para criar/apreender as práxis sociais é necessário conhecimentos que vão se adaptando às suas metamorfoses especulares, ao seu íntimo novelo de contradições, desvios e ordens, sabendo unir e desatar sonho e realidade, podendo compreender súbitas e irracionais configurações, devaneando a liberdade ao mesmo tempo que ouse lutar pela liberdade que se considere pelo menos mais justa, humana ou mais prazerosa. Sem essa afinidade eletiva entre conhecimento e sujeito não há História Oral, que deve revelar e criar o ser social e a singularidade através do desvelar e do desmontar significados, fazendo parte do conhecimento vital, do conhecimento vivido, do conhecimento crítico, não do fragmentário conhecer científico. Sua objetividade está distante da fria, nomotética e ridiculamente neutra, objetividade científica. Sua objetividade é similar à profunda e essencial "objetividade artística", que se põe como criação-interpretação ficcional das realidades humanas enquanto mundos ficcionais vivos.
A Ciência é um dos elementos fundamentais da produção e reprodução de capital, conhecimento, relações e mercadorias. O capitalismo é, talvez, o único modo de produção com uma "instituição" própria para desenvolver as forças produtivas e, ao mesmo tempo, servir de parâmetro sobre a realidade e validade das coisas, gerando uma das bases da ideologia enquanto pensamento lacunar e necessário ao processo geral de reprodução de todas as redes.
A analítica científica é a expressão viva, em termos de conhecimento, da divisão do trabalho, da radical separação entre sujeito e objeto (consumidor-mercadoria) e da própria estrutura da mercadoria. Sua função é fragmentar. Sua legitimidade provém da brutal similaridade com o real, não com todo e qualquer real, mas com a específica realidade capitalista. A Ciência reproduz os elementos capitalistas e não o concreto, o vivido nem mesmo o "texto" como referente. A mentalidade científica é "idêntica" a mentalidade mercantil.
As "Revoluções Científicas", no fundo, não passam de mudanças e substituições de tecnologia, reciclagem de materiais, necessidade de novas concepções sobre o real como meio de manipulá-lo, poder sobre poder. É através dela, nas sociedades ocidentais, que vemos o mundo.
Dessa maneira a Ciência se impôs como Mito Negativo. Ao invés de um mítico provir do mito, a Ciência é somente um tipo de mito descarnado e cínico. Suas fundações e relações amorais com o Capitalismo e com todo e qualquer poder, desvenda e desvela a sua real essência: ser a principal ideologia do poder e dos poderes, necessidade básica das forças produtivas, enquanto tecnologia, e das relações de produção, enquanto ideologia, fundamento que nenhum bem estar de consumo, para quem pode consumir, pode legitimar.
A realidade desvendada pela Ciência, por mais profunda que pareça, é sempre a aparência mais utilitária, uma casca de mercadoria. Só ao se entregar à imaginação e ao puro deleite negativo é que a Ciência consegue esquecer seu fundamento e destino. Mas assim ela deixa de ser Ciência. A crítica que dissolve fundamentos, negando ideologia e utilitarismos, não faz parte da Ciência, que é eminentemente construtiva, jamais destrutiva, constituição de leis que garantam reprodutibilidade. A destrutividade da Ciência ou é mortal ou é reciclagem, nunca "compreensão humana do mundo" e imposição desse homem acima das coisas e dos sistemas.
O medo do Irracional, como se a racionalidade estivesse na Ciência, desconhece que a Ciência necessariamente é o Irracional tornado Sistema. A racionalidade científica é lacunar, é analítica, é míope, é Razão subserviente (e mesmo ao ser dedutiva voltará necessariamente a ser superfície e mercadoria, conhecimento estritamente utilitário). O capitalismo precisa dessa irracionalidade aparecendo como Razão.
Reificados, podemos somente manter e recriar esse mesmo mundo com sua lógica e necessidades. A Ciência é um dos motores insaciáveis dessa criação planificada e em crise. Criação reificada e modo de pensar que cria somente novos objetos, idéias, imagens, sistemas e conceitos somente para criar novos objetos. A Ciência cria os objetos, as futuras necessidades e o sistema, tanto "científico" quanto do senso comum, que explicam tudo. É a serpente que morde a cauda e se devora. Não tem ética e não poderia ter. Se tivesse não seria a lógica do sistema, aquela que vive para, mais dia menos dia, satisfazer necessidades criando novas necessidades. A Ciência é o mediador entre o consumo e as formas futuras de consumo. O espírito objetificado de um mundo venal, ou o espírito venal de um mundo objetificado. Sua impotência valorativa e sua incapacidade de apreender o humano enquanto vivido numa inescapável teia de contradições, a reduz a ser procriadora de objetos e negadora de sistemas de consumo e produção obsoletos. A Ciência é insaciável. Mas esse é o "espírito" concreto do nosso mundo. A Ciência jamais foi revolucionária. Ela luta somente para substituir o antigo (objeto) pelo novo (objeto). Daí seu ódio ao humano e suas múltiplas irracionalidades. O "estudo inocente" é somente a antevéspera do festim canibal.
A Ciência não tem razão, somente um tipo de lógica que, por suas similaridades com a lógica do capital, pretende-se não somente a única Razão mas a Razão. Ela reproduz falsamente a interioridade do pensamento. Com isso pode excluir as "partes" perigosas, exóticas, doentias, monstruosas, incoerentes, insatisfeitas, revoltadas e inesperadas do próprio pensamento.
Essa Razão aparece internamente como "estrutura Frankenstein", simulacro de um pensar que já não existe enquanto vivência desobjetificada. Isso permite seu funcionamento e utilidade. Como a lógica da Ciência provém da mesma "lógica" que cria o real e o concreto, o imaginário e o objeto, nem o monstro nem o monstruoso são visíveis. O que foi descartado, sendo apenas "irracionalidade", só poderá tornar-se conhecimento em forma de "objeto", sendo estudado como coisa, separada do pensamento, jamais como o próprio pensamento, como se não fosse o próprio pensamento, que, no caso, funciona somente enquanto alteridade esquecida de si mesma.
A Ciência, em princípio, deveria ser o conhecimento que cuidaria do visível, do fenomênico, do quantificável, do objeto, criando e manipulando essa instância da comunidade, fazendo parte do mundo artesanal, isto é, criando técnica e tecnologia, mas jamais tratando da estrutura íntima, essencial, contraditória, única, do universo, que é o mesmo que dizer humano, interioridade e ficção como se fossem objetos, num reducionismo absolutamente injustificável até mesmo em termos científicos. Mas a Ciência apagou, destruiu e desconsiderou essa questão. Projeta somente como real e existente a visibilidade, o objeto, porque são passíveis de se repetirem, de se tornarem "lei", por se tratar do mundo técnico e manipulável para as práticas produtivas da sociedade, a única realidade possível (a Ciência representa um empobrecimento monstruoso do "humano" ao mesmo tempo e na mesma medida em que multiplica ao infinito o poder e a riqueza das classes detentoras dos meios de produção, sem esquecer o potencial de satisfação para os consumidores). Sem esse reducionismo ontognoseológico não existe Ciência, que é exatamente a atividade produtiva impondo-se como Razão e Natureza, como sociedade e universo, como teoria e imaginário. É a "visão econômica" do mundo, o primado e o exclusivismo do visível, do quantificável, do restrito e ridículo nomotético, do tecnológico elevado a sistema único que devora qualquer significado além de si mesmo. A visão científica do mundo é a vitória da "Filosofia e do espírito capitalista", reducionismo do humano ao objeto, da invisível objetificação de todas as realidades.
A "racionalidade científica" nasceu como Razão burguesa. Esta racionalidade construiu objetivamente "os sistemas tecnológicos" e "os sistemas teóricos" das sociedades capitalistas. A "racionalidade científica" para poder servir ao universo social, precisou dissolver as antigas racionalidades e constituir para si a "racionalidade funcional". Essa racionalidade se impôs como universal e a única via para o conhecimento de qualquer coisa, de qualquer relação, de qualquer existência. Com ela a compreensão tornou-se autoritária. Nessa operação constituiu-se o tipo de Razão que permitiu a fragmentação, a despolitização, a objetividade além do humano, a tecnificação interna como condição interpretativa.
A racionalidade desprovida de loucuras, acética, bem comportada, inocente, metódica, neutra, puritana, "revolucionária" no e com o sistema, serve perfeitamente ao modo de produção capitalista e só ela pode decidir o que é verdadeiro ou falso, existente ou ilusório, útil ou inútil.
A singularidade não existe na Ciência (a não ser estudada momentaneamente como objeto antes de se exigir uma multiplicação de singularidades para garantir a representatividade, onde a singularidade cessa e a lei toma forma e o modelo ganha sentido) porque ao pensar capitalista só interessa a generalização, as leis, os simulacros de universalidade que esmagam o singular e possibilitam técnicas e tecnologias, objetos e sistema de objetos, necessidades criadas e consumos necessários. O pensamento inteiro é a singularidade. A Razão científica é, no fundo, um irracionalismo que luta desesperadamente contra a singularidade em nome de uma ordem jamais apresentada. Entrando num processo de massificação, de clonagem, de impotência diante de qualquer realidade, tornamo-nos o "sonho" não dito da Ciência.